No mês de outubro deixou-nos Álvaro Salazar (1938–2026), compositor, maestro, professor, musicólogo e crítico musical cuja obra é uma referência incontornável na cultura portuguesa contemporânea.
Natural do Porto, Álvaro Salazar foi um dos primeiros compositores portugueses a investigar especificamente a música concreta e eletroacústica. Em 1978, fundou a Oficina Musical, um grupo dedicado ao estudo e à divulgação da nova música. Como maestro, ficou responsável por várias estreias nacionais de compositores tão influentes como Janáček, Ives, Webern, Varèse, Eisler, Feldman e Ligeti, entre muitos outros. Enquanto professor, teve um papel fundamental no desenvolvimento do ensino da Análise Musical em Portugal.
Em 1965, Álvaro Salazar decidiu destruir todas as obras que tinha apresentado até então, recomeçando, de certa forma, do zero o seu percurso enquanto compositor. Anton Webern, Edgar Varèse, Luigi Nono, Franco Donatoni e Morton Feldman eram algumas das influências da sua linguagem musical. A sua gramática composicional caracteriza-se pela preferência por texturas claras, nas quais explora a fronteira entre o som determinado e o não determinado, pelo uso do silêncio como valor estrutural e dramático e pelo uso controlado do aleatorismo.
Na entrevista concedida ao MIC.PT em outubro de 2018, Álvaro Salazar descreveu a sua música da seguinte forma: «Já disse algumas vezes em entrevistas que “o silêncio permite articular os sons”. Ou seja, por um lado, os sons são moldados por pausas de durações diferentes e por uma escrita em que as pausas existem. Por outro lado, também se pode dizer — e já o fiz muitas vezes — o contrário: em vez de ser o silêncio que esculpe o som (expressão que uso), direi que é o som que esculpe o silêncio. Neste sentido, o silêncio já é uma obra.»
Vejam a entrevista em vídeo do MIC.PT com Álvaro Salazar, gravada a 30 de maio de 2005: >> ligação.
>> Dossier n.º 21 · Compositores Portugueses dos Séculos XX e XXI · Álvaro Salazar.
A Miso Music Portugal e o Centro de Investigação e Informação da Música Portuguesa (MIC.PT) em parceria com o Centro de Estudos em Música (CESEM), apresentam publicamente a ISCM World New Music Magazine #31, 2025, edição dedicada a Portugal e publicada pela International Society for Contemporary Music, no dia 19 de junho, às 18h00, no Auditório 3, da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, que acolhe esta sessão de lançamento.
Magnus Bunnskog é o editor da World New Music Magazine, cujo trigésimo primeiro número conta com contribuições de Ana Telles, Andreia Nogueira, António Ferreira, Cláudio de Pina, Filipa Magalhães, Frank J. Oteri, Glenda Keam, Jakub Szczypa, Manuel Pedro Ferreira, Miguel Azguime, Pedro Boléo e Pedro Prista. A publicação, que está disponível em português e inglês, conta com o apoio financeiro da ISCM, da Fundação Gulbenkian e da DGARTES.
O trigésimo primeiro número da World New Music Magazine surge no seguimento da realização, pela primeira vez em Portugal, dos ISCM World New Music Days 2025, um dos mais importantes encontros internacionais dedicados à criação musical contemporânea, promovido pela International Society for Contemporary Music e organizado em Portugal pela Miso Music Portugal/MIC.PT. Ao reunir artigos, testemunhos, ensaios e reflexões de compositores, investigadores, intérpretes, programadores e agentes culturais, esta edição da World New Music Magazine constitui não apenas um retrato plural da criação musical contemporânea portuguesa, mas também uma oportunidade para refletir sobre o seu lugar no contexto internacional.
O lançamento contará com uma mesa redonda moderada por Pedro Boléo, reunindo os participantes e autores que contribuíram para a publicação. Sob o mote O que é novo na música portuguesa?, o debate procura promover uma reflexão partilhada sobre as transformações, desafios, continuidades e linhas de força que atravessam atualmente a criação musical em Portugal. Este encontro propõe uma conversa coletiva sobre o presente e o futuro da música portuguesa, procurando interrogar o que nela emerge como novo: nas linguagens, nas práticas, nos contextos de produção e circulação, nas relações entre criação, investigação, interpretação, tecnologia, território e escuta.
Com esta publicação e o seu lançamento público, a Miso Music Portugal/MIC.PT, em parceria com o CESEM, reafirma o seu compromisso com a documentação, valorização, investigação e internacionalização da criação musical portuguesa, contribuindo para uma maior visibilidade dos seus protagonistas e para o aprofundamento do pensamento crítico sobre a música do nosso tempo.
Está aberta a Chamada de Comunicações para o 4.º EMTI, uma iniciativa do MIC.PT e com curadoria da compositora Isabel Soveral, que terá lugar no dia 11 de dezembro no O’culto da Ajuda, em Lisboa. Realizado em colaboração com o Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro (DeCA), o Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudos em Música e Dança (INET–md) e o Grupo de Criação, Performance e Investigação Artística do INET–md, coordenado por Henrique Portovedo, este encontro constrói um espaço de reflexão crítica e de partilha de investigação nas áreas da criação musical contemporânea, interpretação, teoria e tecnologia da música, convidando investigadores, compositores, intérpretes, artistas sonoros e estudantes a apresentarem comunicações que explorem as múltiplas relações entre a música, a tecnologia e o pensamento criativo. O 4.º EMTI dará particular destaque às práticas de espacialização, eletroacústica e difusão sonora por meio de sistemas de altifalantes, decorrendo em articulação com Espaços de Escuta, um conjunto de concertos dedicado à música eletroacústica portuguesa e à exploração da Orquestra de Altifalantes da Miso Music Portugal enquanto instrumento de difusão, interpretação e composição do espaço sonoro. A Chamada para o 4.º EMTI está aberta até ao dia 11 de setembro de 2026.
A obra Curta-metragem n.º 2 (Brumas de outono), para cimbalão solo, de Daniel Moreira, foi selecionada para o festival World New Music Days 2026, no âmbito da candidatura oficial da Miso Music Portugal / MIC.PT enquanto Secção Portuguesa da ISCM (International Society for Contemporary Music). O festival World New Music Days 2026, com o subtítulo Columna Infinită e organizado pela Secção Romena da ISCM, decorrerá entre 23 e 31 de maio, em Bucareste, na Roménia. A obra Curta-metragem n.º 2 (Brumas de outono) foi composta por Daniel Moreira em 2025, a pedido do percussionista Manuel Campos, o primeiro músico em Portugal a especializar-se no cimbalão, um instrumento mais comum na Europa Central e de Leste. A presente obra visa contribuir para o repertório ainda limitado do cimbalão em Portugal, fazendo parte de um ciclo de peças a solo, todas intituladas Curta-metragem, cada uma inspirada num filme mudo específico. Curta-metragem n.º 2 inspira-se em Brumes d’Automne (1929), de Dimitri Kirsanoff, evocando a atmosfera melancólica e impressionista do filme, em que a turbulência emocional de uma mulher é associada a imagens outonais, como a chuva, as sombras e a neblina.