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João Madureira


Foto: João Madureira · © Teresa Santos

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Questionário/ Entrevista

· Que caminhos o levaram à composição? ·

João Madureira: O que me levou à composição foi a ideia absoluta de que era o meu modo de me expressar. Nunca pensei muito que o que estava a fazer era uma necessidade imperiosa. Posso até contar que uma vez estava a cantar enquanto estava a ter uma aula e fui surpreendido pela professora. Tudo se passou no sexto ano de escolaridade. Nunca pensei em ir ter com a música. Sempre foi ela a vir ter comigo.

· Que momentos da sua educação musical se revelam, hoje em dia, de maior importância para si? ·

JM: O início da formação musical e o início das aulas de instrumento a que se junta, naturalmente, o início das aulas de Composição com o professor Christopher Bochmann. Antes disso pensava na música como algo que era fruto de mera inspiração. Só depois é que pensei que a música era a articulação da inspiração com a técnica. Ainda hoje penso assim.

· Que referências do passado e da actualidade assume na sua prática musical? ·

JM: Avanço com o nome destes compositores: Bach, Mozart, Beethoven, Schubert, Berio e Ligeti.

· Quais as obras de outros compositores que pode considerar como pontos de viragem no seu percurso? ·

JM: “Pierrot Lunaire”, de Schönberg, “A Sagração da Primavera”, de Stravinsky e “Préludes” para piano, de Debussy. “Sinfonia”, de Berio, “Concerto de Câmara”, de Ligeti, “Pli Selon Pli”, de Pierre Boulez, e “Stimmung” de Stockhausen. E há muitas outras obras-primas…

· No seu entender, o que pode exprimir e/ ou significar um discurso musical? ·

JM: Na verdade penso que um discurso musical pode significar muita coisa. Nisso estou em profundo desacordo com alguns compositores do século XX e em profundo acordo com muitos compositores do século XIX. Acho que a música transporta um significado, ao contrário de muitos, que acham que a música é uma linguagem abstracta que não pretende significar nada.

· Existem fontes extra musicais que de uma maneira significante influenciem o seu trabalho? ·

JM: Sim, o meu CD com os “Estudos literários — Retratos” (ed. MPMP · Ana Telles – piano) é disso exemplo, entre muitas outras peças que radicam numa mesma relação: a literatura, e com ela a linguagem verbal, é uma presença muito importante no meu trabalho como compositor. De igual modo o é, também, a pintura, a que sinto uma vontade indómita de prestar homenagem.

· No contexto da música de arte ocidental, sente proximidade com alguma escola ou estética do passado ou da actualidade? ·

JM: Sim, sinto muita proximidade com a escola estética do pós-espectralismo. Penso que os ensinamentos do espectralismo são fundamentais, mas que a posterior modelação dos seus resultados, através de processos de releitura e de filtragem do espectro, cruzando-o com outras linguagens, é também para mim crucial.

· Existem na sua música algumas influências das culturas não ocidentais? ·

JM: Sim. Mas via Messiaen, com a sua ligação à cultura musical indiana; via Ligeti, com a sua ligação à cultura musical africana, que se tornou mais veemente na sua última fase de produção; via Pierre Boulez, com a sua ligação à cultura musical oriental, também mais presente na sua última fase de produção; e também via Luciano Berio, com o seu encarar da música europeia, entre outras, como algo a explorar etnologicamente.

· Há algum género/ estilo musical pelo qual demonstre preferência? ·

JM: Sim. Obviamente a música erudita ocidental, mas também a música tradicional mundial. Entretanto, é tempo de ver a música popular europeia/ocidental sob uma perspectiva antropológica, coisa que infelizmente é muito raro suceder entre os compositores.

· No que diz respeito à sua prática criativa, desenvolve a sua música a partir de uma ideia-embrião ou depois de ter elaborado uma forma global? Por outras palavras, parte da micro para a macro forma ou vice-versa? Como decorre este processo? ·

JM: Parto das duas ideias simultaneamente. Na verdade penso que é isso acontece com a inspiração.

· Como na sua prática musical determina a relação entre o raciocínio e os impulsos criativos ou a inspiração? ·

JM: Na verdade penso que a inspiração e raciocínio são uma e a mesma coisa. Por isso o que se dá é uma reflexão sobre o material através de diversas ferramentas criadas por mim.

· Qual a importância do espaço e do timbre na sua música? ·

JM: Total. Mesmo quando isso não é aparente.

· O experimentalismo desempenha um papel significante na sua música? ·

JM: Sim, mas os resultados do experimentalismo devem ser avaliados por aquele que compõe. E é então que o compositor é como que um avaliador dos resultados do seu experimentalismo.

· Quais as obras do seu catálogo que pode considerar como pontos de viragem no seu percurso? ·

JM: As peças que posso considerar um ponto de viragem no meu caminho são sem dúvida “Tropo” (1994), para orquestra, ainda escrita no curso de Composição e nunca estreada, a que se juntam duas peças encomendadas pelo Miso Music, que são “Ausgrabem und Erinnern” (2006) e “Toc, toc, toc” (2009); a primeira, porque usa muito a minha técnica de transcrição e de vectorialização, e a segunda, porque me desafiou numa leitura sonora do próprio conto da autoria de Hélia Correia, o seu ritmo e respiração, e as suas onomatopeias. Penso ainda em “Pater”, o primeiro momento de “Passio I-III” (de 2009), porque é uma peça que usa abundantemente uma visão nova do fenómeno tonal.

· Em que medida a composição e a performance constituem para si actividades complementares? ·

JM: Na verdade penso que composição e performance devem estar sempre ligadas.

· Como define o papel de compositor hoje em dia? ·

JM: Para mim o compositor deve ser alguém apto a reflectir sobre a realidade dos nossos dias e não alguém fechado sobre o seu mundo técnico e estético.

· No tempo presente, quais são as suas preocupações artísticas principais? ·

JM: As minhas preocupações principais são uma maior ligação com os intérpretes e com o público. Sem eles tudo perde a razão de ser.

· Quais são os seus projectos decorrentes e futuros? ·

JM: Neste momento não tenho nenhum projecto. Mas gostaria de, no futuro, estabelecer uma relação com os intérpretes, por exemplo, constituir uma pequena banda de instrumentistas e trabalhar na sua proximidade em composição. Pautada pelas ideias que mencionei atrás.

· Defina a relação entre a música e a ciência e como esta segunda eventualmente se manifesta na sua criação. ·

JM: Eu acho que música e ciência estão intimamente ligadas na constituição de um discurso musical. Por isso, acho que a ciência de hoje em dia é fundamental para a música contemporânea. Mas uma ciência que interrogue o Homem de hoje.


João Madureira · Playlist

 

   
João Madureira
Ausgraben und erinnern (2006)
Sond'Ar-te Electric Ensemble
Pedro Neves (direcção musical)
  João Madureira
Toc Toc Toc (2009)
Sond'Ar-te Electric Ensemble · Petter Sundkvist (direcção musical)
Miguel Azguime (recitante)
  João Madureira
Open Enclosure (2019)
Sond'Ar-te Electric Ensemble
Pedro Neves (direcção musical)
· «Inscrição» (2006) · Aida-Carmen Soanea (viola) · «viola [un]plugged» [Festival DME] ·
· «Toc Toc Toc» (2009) · Sond'Ar-te Electric Ensemble, Pedro Neves (direcção musical), Rosina Costa (recitante) · «Diz-Concerto» [Miso Records (MCD39.15)] ·
· «60''» (2010) · Sond'Ar-te Electric Ensemble, Pedro Neves (direcção musical) · «CADAVRES EXQUIS Portuguese Composers of the 21st Century» [Miso Records (MCD 036.13)] ·
· «Missa de Pentecostes · 9. Postcommunio (As fontes) · 10. Dimissio (Ama como a estrada começa)» (2010) · Sete Lágrimas, Filipe Faria (tenor), Sérgio Peixoto (tenor), Sofia Diniz (viola da gamba), Hugo Sanches (tiorba) · «Vento Sete Lágrimas» [Arte das Musas/ MU Records (MU0108)] ·
· «Estudos Literários – Retratos · Ana · AH» (2011-13) · Ana Telles (piano) · «Estudos Literários – Retratos» [MPMP Património Musical Vivo (Melographia Portugueza 25)] ·
· «Double» (2015) · Orquestra de Sopros da Escola Superior de Música de Lisboa, Alberto Roque (direcção), Sforzanduo (Miguel Filipe e Tomás Moital [percussão]) · «Criação, Circulação, Registo Áudio e Edição de Obras de Música Portuguesa Contemporânea» [MPMP Património Musical Vivo (MPMPCD48)] ·
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