Em foco

Sofia Sousa Rocha


Questionário/Entrevista

Parte I . raízes e educação

Como começou para si a música e onde identifica as suas raízes musicais?

Sofia Sousa Rocha: O meu contacto com a música começou de forma indirecta. A minha família não tem raízes musicais, apesar do meu pai gostar muito de música e desde sempre ter ouvido muitas obras dos compositores mais conhecidos do grande público. Frequentei aulas de ballet dos quatro aos sete anos e considero que foi esse o impulso para aprender música. Aos sete anos, comecei a ter aulas particulares de piano e aos 11 ingressei no Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga. Por falta de vagas em piano, tive que escolher outro instrumento. Comecei a estudar violino nessa altura e conclui o oitavo grau em 2004.

Que caminhos a levaram à composição?

SSR: O primeiro contacto com a composição está relacionado com a oferta curricular do Conservatório. A disciplina de Introdução às Técnicas de Composição, no oitavo e nono anos de escolaridade, despertou o interesse pela composição e foi decisiva para a escolha do Curso Complementar de Composição no Ensino Secundário. O curso estava em funcionamento desde 2000 e eu ingressei no ano lectivo seguinte.

Que momentos da sua educação musical se revelam, hoje em dia, de maior importância para si?

SSR: O conjunto de aprendizagens adquirido durante o ensino básico e secundário foi fundamental para a minha formação. Desde logo, refiro a minha prática como instrumentista a solo e em orquestra, a continuidade das aulas de piano e, paralelamente ao currículo do Conservatório, a frequência de aulas de canto, construíram uma base técnica muito importante para a minha formação como músico e para a aprendizagem da composição. Neste campo, o Curso de Composição do Ensino Secundário, sob orientação de Paulo Bastos, foi um período muito marcante para mim. O contacto sistemático com a música do século XX, instrumental e electrónica, com as técnicas de composição e a diversidade estética, proporcionou uma formação muito completa e estruturada que considero ter sido decisiva no meu percurso.
Posteriormente, já na Escola Superior de Música de Lisboa, tive oportunidade de trabalhar com professores que foram muito importantes para a minha formação, quer a nível técnico, quer a nível estético e que muito influenciaram a forma como hoje componho.

Parte II . influências e estética

Que referências do passado e da actualidade assume na sua prática musical?

SSR: As referências são múltiplas e é-me difícil assumir quais influenciam a minha música de forma directa. Julgo que, de certa forma, as obras e compositores que me vêm à memória sem esforço, contribuíram para a formação da minha linguagem, particularmente no meu contacto inicial com a composição. Refiro-me às primeiras obras do século XX que ouvi, as Folk Songs e a Sequenza para voz de Berio, a Musica Ricercata de Ligeti, os Jatékók de Kurtág, A Sagração da Primavera de Stravinsky, sem esquecer o fascínio que sinto pela música de Bach e Beethoven. Lembro-me também de ter ficado fascinada com a obra Phrygian gates de John Adams. Noutras fases do meu percurso, recordo-me do impacto da música de Debussy e Ravel, das Quatro últimas canções de R. Strauss, de outras obras de Kurtág e Ligeti.

Existem fontes extramusicais que de uma maneira significante influenciem o seu trabalho?

SSR: Creio que não. A única fonte extramusical que identifico como ligação à minha prática composicional mais directa é a utilização de poesia no contexto de algumas obras.

No contexto da música de arte ocidental, sente proximidade com alguma escola ou estética do passado ou da actualidade?

SSR: Tal como referi relativamente às referências do presente e do passado, a proximidade estética da minha linguagem é também difícil de objectivar. É evidente que sou herdeira de uma tradição musical, mas as influências não são directas e não consigo incluir-me numa tendência estética específica.

Parte III . linguagem e prática musical

Caracterize a sua linguagem musical sob a perspectiva das técnicas/estéticas desenvolvidas na criação musical nos séculos XX e XXI, por um lado, e por outro, tendo em conta a sua experiência pessoal e o seu percurso desde o inicio até agora.

SSR: A pluralidade de estéticas é um traço caracterizador do nosso tempo. Terei afinidades com diversas linguagens dos séculos XX e XXI, mas a proximidade temporal torna muito difícil o exercício retrospectivo que me permita contextualizar-me numa estética em particular. De qualquer forma, é evidente que existem determinadas características que me aproximam de algumas linguagens do nosso tempo – a harmonia quasi-consonante e fixa, as longas durações de um campo harmónico, as poucas progressões e rupturas formais, a utilização pouco frequente de figuras ou gestos que, quando ocorrem, integram a textura ou realçam a linha melódica. Estas particularidades constituem parte de uma técnica adquirida ao longo dos últimos anos e sobre a qual tive oportunidade de reflectir, sustentada pela experiência do Professor António Pinho Vargas, com quem trabalhei no âmbito do Mestrado em Música da Escola Superior de Música de Lisboa.

Há algum género/estilo musical pelo qual demonstre preferência?

SSR: Não há propriamente um género ou estilo musical da minha preferência, embora tenha uma certa tendência para escrever para voz, quer esteja integrada no coro, quer esteja incluída como solista noutros agrupamentos. Gosto muito de escrever para orquestra e grandes ensembles, embora não o tenha feito com muita frequência nos últimos anos.

No que diz respeito à sua prática criativa, desenvolve a sua música a partir de uma ideia-embrião ou depois de ter elaborado uma forma global? Por outras palavras, parte da micro para a macro-forma ou vice versa? Como decorre este processo?

SSR: Para mim, o acto de escrever uma peça implica alguma reflexão. Frequentemente, idealizo a obra ainda sem ter uma noção precisa de como poderá ser escrita. Depois, começo a fazer escolhas relativamente ao gesto inicial, que procura uma correspondência com a ideia geral da peça. De alguma forma, a escrita desse gesto corresponde a um momento de formalização e, ao mesmo tempo, condiciona a progressão e o resultado. O processo de composição da obra é dinâmico e, embora tenha tendência para pensar que parto de uma ideia-embrião para a música que escrevo, sei que esse gesto é consequência de uma reflexão que começa com a pergunta: o que quero ouvir?

Como na sua prática musical determina a relação entre o raciocínio e os “impulsos criativos” ou a “inspiração”?

SSR: A relação entre estes dois vectores tem sido alvo de uma permanente reflexão ao longo do meu percurso. Olhando em retrospectiva, considero que a técnica que desenvolvi tem uma base sólida e estruturada. Creio que a escolha do gesto inicial da obra é tendencialmente intuitiva, embora não deixe de acreditar que essa ideia é algo inocente. Todas as escolhas podem ser determinadas pela intuição embora sejam norteadas por critérios mais estruturados ao nível do raciocínio. Acima de tudo, o critério primordial é a escolha do material composicional através da escuta, o que corresponderá sobretudo a critérios de gosto pessoal, seguindo-se uma exploração de diversas técnicas de desenvolvimento dessa ideia-embrião.

Quais as obras que pode considerar como pontos de viragem no seu percurso?

SSR: Mais do que mencionar obras importantes no meu percurso, e considerando que a minha actividade como compositora ainda é relativamente pequena para ter pontos de viragem, devo referir que um dos momentos mais importantes no meu trajecto foram os dois anos de Mestrado, orientados, como já referi, pelo Professor António Pinho Vargas. O desenvolvimento de um Projecto Artístico subordinado ao tema Reflexões acerca do processo criativo, desenvolveu-se no âmbito da criação de uma peça para piano (Em torno de 2011) e conduziu a uma reflexão muito aprofundada sobre a minha forma de escrever, assumindo um carácter quase de diagnóstico. Por um lado, foi possível elencar um conjunto de técnicas adquiridas e por outro foi proveitoso detalhar os aspectos que considerei necessitarem de alteração. Na altura, desenvolvi um conjunto de estratégias que utilizei de forma sistemática ao longo do processo de criação da nova peça, tomando nota das ideias e reflexões que surgiram nos meses de trabalho que este projecto envolveu. Na hora de fazer o balanço do trabalho realizado, e decorridos quatro anos desse momento, posso afirmar que, mais do que um ponto de viragem no meu percurso, esta reflexão permitiu desenvolver um conjunto de ferramentas de trabalho que utilizei em obras posteriores, sedimentando de forma mais sustentada a minha linguagem musical.

Parte IV . a música portuguesa

Tente avaliar a situação actual da música portuguesa.

SSR: Há certamente muito a dizer sobre a situação da música em Portugal, sobre os aspectos positivos e negativos do que por aqui se vai passando: existem instituições que apoiam a cultura musical portuguesa e instituições que formam músicos em todos os níveis de ensino com qualidade assinalável, mas existem problemas estruturais, sustentados pela ausência de ideias e políticas de quem nos governa e que dificilmente terão solução nos próximos anos.
Penso que não há ninguém mais esclarecido no tratamento deste assunto do que o Professor António Pinho Vargas. No seu livro Música e Poder retrata a situação da música portuguesa e, ainda que o objecto de estudo esteja relacionado com a sua ausência no contexto europeu, não podemos ignorar que o retrato que traça é muito lúcido e rigoroso. Para mim, e penso que para a minha geração, é um livro de leitura obrigatória, na medida em que proporcionou uma ideia mais sustentada e sistemática da nossa realidade.

No seu entender é possível identificar algum aspecto transversal na música portuguesa da actualidade?

SSR: Penso que o principal aspecto que consigo identificar é a pluralidade das linguagens, mas não me parece que seja um aspecto exclusivo da música portuguesa.

Como define o papel de compositoras hoje em dia?

SSR: Na actualidade, não me parece que haja assimetrias de oportunidades entre géneros. Na verdade, nos últimos 20 anos a composição em Portugal teve um forte impulso e as oportunidades que surgiram, não são dirigidas para um género específico. Penso até que, em certa medida, algumas mulheres compositoras poderão beneficiar com a distinção de género. Estou a lembrar-me especificamente do trabalho desenvolvido pela Fundação Adkins Chiti Donne in Musica. Em alguns casos, procuram-se mulheres compositoras para completar um determinado programa, de forma a haver uma maior representatividade de género. As oportunidades de trabalho, de um modo geral, dependem de outros factores. No plano mais estético, considero que as obras compostas por compositoras não apresentam particularidades inerentes ao género. Por outras palavras, não me parece que haja uma forma de compor no feminino.

Parte V . presente e futuro

Quais são os seus projectos decorrentes e futuros?

SSR: Após a fase de composição da obra Fala do velho do Restelo ao astronauta no Verão de 2014, seguir-se-á a sua estreia pelo Sond’Ar-te Electric Ensemble no próximo mês de Dezembro. Esta obra foi um importante desafio por duas razões principais: nunca tinha escrito uma obra para narrador e há já vários anos que não compunha obras para electrónica, e, desta vez, com interacção do próprio Ensemble e do narrador. A fase de ensaios será de grande importância para mim por se tratar de um momento de aprendizagem, onde poderei testar a eficácia da música que escrevi. Trabalhar com músicos experientes vai ser, com toda a certeza, muito enriquecedor.

Poderia destacar um dos seus projectos mais recentes, apresentar o contexto da sua criação e também as particularidades da linguagem e das técnicas usadas?

SSR: Um dos projectos que desenvolvi no passado mais recente, foi a composição de uma obra para piano a 4 mãos para o Kla-Vier Duo. A obra Por um dia igual foi escrita a pedido das pianistas Patrícia Ventura e Sónia Amaral, que se têm dedicado à divulgação de obras do século XX/XXI, particularmente de compositores portugueses. Como a sua actividade está mais centrada a norte do país, foi com muito gosto que assisti à apresentação da obra em Braga, a cidade onde nasci e onde já não estreava obras desde o tempo do Conservatório assim como à primeira apresentação de uma obra minha no Porto. Já depois da fase de apresentação da obra em concerto, o Kla-Vier Duo decidiu gravar um vídeo com a interpretação da minha peça, o que muito me honra.

Sofia Sousa Rocha, Dezembro de 2015
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