Entrevista

Entrevista a António Victorino d'Almeida / Interview with António Victorino d'Almeida
2005/jun/01
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Influência de professores como Artur Santos ou Joly Braga Santos na formação como compositor

Eu devo dizer que além desses professores de música, na minha formação cultural, digamos assim, houve outros professores que tiveram importância e acho que não posso esquecer esse pormenor.
O Artur Santos era um homem encantador, uma pessoa notável e um homem de quem fiquei amicíssimo a vida inteira (infelizmente hoje já não está entre nós como nenhum destes professores já está entre nós...). Curiosamente, eu não me dava bem com o Artur Santos como professor. Não era uma coisa pessoal, mas não havia uma boa relação. A pedagogia do Artur Santos não pegava comigo. Fui aluno dele durante pouco tempo e isso veio mostrar como, efectivamente, as pessoas podem dar-se bem e serem amigas, respeitar-se mutuamente e de uma forma indiscutível, mesmo admitindo a realidade de que não se está de acordo em certas coisas. Eu cito sempre a frase do Voltaire (que ele dizia, para um tipo nos Estados Gerais) e que era bom que fosse aprendida em Portugal: “Eu abomino tudo o que você diz, abomino tudo o que você faz e pensa, mas estava disposto a deixar-me matar para que você o pudesse pensar, dizer e fazer”. Isso é uma coisa que em Portugal não se respeita, porque quem não concorda com outro… acabou! Ora, com o Artur Santos foi exactamente o contrário. Não se tratava de concordância - eu era um miúdo, ele era um professor - mas sim de uma forma de pensar, de sentir, de agir. O Artur Santos era o contrário do que eu sou e eu o contrário dele. Deixei de ser aluno dele mas fiquei amicíssimo a vida inteira.
Ora, Joly Braga Santos já teve uma importância muito maior enquanto professor. Foi um grande orquestrador e, de facto, quando eu fui para Viena, sabia orquestrar!
Em Viena nomeadamente… tive o Karl Schiske e esse marcou a minha vida! Foi um aluno brilhante de Schoenberg e marcou-me muito, de facto, em termos estéticos, técnicos… tudo! Estive sempre muito ligado ao Karl Schiske… mas em termos de orquestração… eu sabia! Quer dizer… todos os dias se aprende alguma coisa nova, não é? Mas aquelas bases de ser um bom orquestrador já tinha! Ainda recentemente fiz uma sinfonia, à maneira dos meus anos 20, uma coisa para o Benfica e recuei, de certo modo, à infância, Fui buscar temas que eu nunca tinha utilizado, que tinha composto com 18 ou 20 anos, ou que até faziam parte de pequenas peças que nunca teriam tido saída nenhuma e que eu decidi pôr dentro de uma sinfonia. E essa orquestração, fi-la à maneira daquilo que eu já sabia fazer nesse tempo, com o Joly Braga Santos, e posso dizer que aquilo está bem orquestrado! Isso realmente… o Joly ensinou-me essencialmente muito bem orquestração. E o desenvolvimento das ideias também um bocadinho… E ele era uma personalidade, um homem que me marcou.
Como professor de piano, marcou-me o Campos Coelho que era um grande professor de piano. Controverso em muitas coisas porque eu sei que ele era… mas eu não lhe sofri as consequências…
Há outros dois professores de que eu quero falar. É que na altura, ou se fazia o Liceu em casa e o Conservatório no Conservatório, ou vice-versa e eu tive a sorte incrível de os meus pais terem decidido que eu fizesse o Liceu em casa e o Conservatório no Conservatório. Ia às aulas do Conservatório mas o Liceu, fazia-o em casa, o que fez com que eu tivesse um luxo de professores. Eram pessoas que viriam a ser vedetas no Futuro, mas que na altura eram até perseguidos políticos, muitos deles. O António José Saraiva, o Jorge Borges de Macedo, o Jaime Leote em Matemática, quer dizer... eram tudo vedetas, ou melhor: futuras vedetas.
E eu penso que um músico não é... (quem é que dizia isso...?) “É mau músico, aquele que for apenas músico”… é mais ou menos uma frase neste estilo… e a verdade é que eu insisto em dizer que a formação, quase que diria humanística que eu devo a esses professores, me influenciou e continua a influenciar francamente a minha vida, como músico.
Eu considero que a minha forma de compor está permanentemente ligada a um programa. Mas não é um programa de andar a contar histórias de passarinhos, ou de imitar a chuva ou nada disso! Mas é um programa ideológico. Em toda a música que eu faço! Goste-se ou não se goste, eu tenho um programa ideológico em toda a minha música. Sou assim!
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Diversidade das Linguagens Musicais do Século XX

E eu acho que o Século XX foi o século mais rico de toda a música. Foi um século fantástico em que você tem as figuras mais díspares… Mas marcadas, muitas delas, pela qualidade! No século XX você tem um Stravinsky, por um lado, um Bartók, por outro lado, um Shostakovich e um Prokofiev, que cada vez estão mais “em alta”, uma Escola de Viena com o Schoenberg, o Alban Berg, o Webern… E digamos assim… algumas consequências importantes, nomeadamente como um Pierre Boulez. Depois… tem a Escola Polaca, dos “Pendereckis”, dos “Lutoslawskis”, etc.
Mas no século XX você tem o Richard Strauss… tem o Jazz que é importantíssimo… tem a Bossa Nova, que é importantíssima na música do Século XX… os encadeamentos harmónicos… E depois há qualidade! É que ninguém pode dizer que o Rachmaninoff não tem uma qualidade absoluta! Eu não troco novidade por qualidade! Quer dizer, há um tipo que é novo e há outro que é bom... Eu vou é pelo bom, não vou pelo novo! E as pessoas confundem isso muitas vezes. (Bem… o Gershwin, é uma consequência!)
E depois… todos estes que estão a surgir agora ou que surgiram ainda há pouco tempo... Os “Arvo Pärt”, a Gubaidulina, o Schnittke… só não vou citar jovens (ou menos jovens) músicos portugueses porque iria ser injusto e porque sei que há 4, 5, 6, 7, 8 bons, que eu tenho ouvido... Está a ver a riqueza que foi o século XX?!
Agora… ao mesmo tempo acho que foi um século que teve um período altamente repressivo. Quer dizer… cada grupo (alguns mais do que outros, é um facto), agiram como se fossem polícias da música. “Nós é que sabemos!”, “É assim!”... e é uma espécie de Gestapo! Gestapo da atonalidade, por exemplo, porque andavam a proibir os outros de fazer o que quisessem... eu acho que é uma parvoíce! Acho que um século que nos deu tantas possibilidades… que nos abriu uma tal panóplia de opções, para que é que eu hei-de ir só por uma?!!... Por que é que eu hei-de fazer dieta, se não sou diabético? Acho que posso ir em frente... é esta a minha posição. Dir-se-á “mas isso não é uma baralhada?”. Uma coisa é baralhar, outra coisa é fazer uma síntese e a síntese é tudo menos uma baralhada. Mas o meu objectivo não é, obviamente, baralhar e meter tudo!…
O Charles Ives é, sem dúvida alguma, um dos compositores com o qual eu mais me identifico. Curiosamente, às vezes até me dizem “você é influenciado pelo Charles Ives?” e eu digo que sim... mas é mentira, porque eu não conhecia o Charles Ives e já tinha composto muitas das peças que têm a ver com ele, nomeadamente a Sinfonia de Vilar de Mouros, a Sinfonia Concertante… E eu nessa altura nem sabia que o Charles Ives existia. Também não conhecia o escritor John Irving e vim a descobri-lo nos meus livros “Coca-Cola Killer” e “Tubarão 2000”… sem eu saber, influenciou-me e identifico-me com ele!
Depois, também acho que… e isso foi o Borges de Macedo, o meu professor de História, que me explicou isto… Temos que distinguir entre o historiador e o investigador. O historiador é o Oliveira Martins. E o Jorge Borges de Macedo achava que o Oliveira Martins, que era um genial historiador, às vezes falhava numa informação mais concreta, mais isenta… e o Borges de Macedo gostaria de ter sido ele o investigador…
Eu acho que nunca é de menosprezar todo e qualquer trabalho de investigação estético na música. Uma coisa é a gente gostar ou não gostar, atribuir mais ou menos valia às coisas ( é uma frase feita: “As coisas valem o que valem”, e às vezes valem o que não valem, e sabe-se lá o que é que valem, na realidade...) mas, a nossa obrigação é sermos sinceros e dizer “isto interessa-me ou isto não me interessa”. Mas nunca menosprezar… porque em qualquer tipo de música podem surgir – e surgiram – descobertas fundamentais! Claro que as novas técnicas são importantíssimas! O que não quer dizer que a descoberta de uma técnica, em si, resolva tudo. Essa técnica tem de ser posta ao serviço de uma determinada coisa.
Para mim, por exemplo, o que foi fundamental com a Escola de Viena, não foi criar a atonalidade, porque, como disse o Schoenberg, “há muita coisa para compor em Dó Maior”. (…) O que se alterou foram as funções, não interessa se é tonal ou não tonal. O Dó Maior passa a ser totalmente diferente se, mesmo utilizando as notas próprias do Dó Maior, a 5ª deixar de ter funções de dominante, a 4º deixar de ser sub-dominante... Se as funções acabarem… e isto até parece uma questão política… se se tirar as funções, a sociedade altera-se. Mas não é necessário ser sequer, tão drástico…
E houve de facto uma altura em que tinha de ser sempre tudo atonal. Para mim, pouco me atrapalhava ou atrapalha que haja um acorde de “dó,mi,sol”, desde que o sol não seja a dominante nem o dó seja a tónica! Aliás, no Messiaen, outro grande nome da música do século XX, você encontra muitas vezes acordes perfeitos. E, no entanto, não se pode dizer que sejam tonalidades ou cedências à tonalidade, uma vez que as funções desapareceram; isso deve-se à Escola de Viena.
Em Portugal… O Jorge Peixinho é um homem que começou na linha do Jorge Croner de Vasconcellos e do Armando José Fernandes… Depois saiu totalmente, foi para outro tipo de influências e de orientações e de opções estéticas diferentes.
Nós já estamos no século XXI, é verdade, mas eu não quero deixar de lembrar os jovens compositores que, enfim, há 5 anos já eram compositores. E há uma série de novos compositores – insisto, não quero dizer nomes porque faltariam um ou dois e porque se calhar, como eu todos os dias estou a conhecer novos, estou a ter boas surpresas. Acho que Portugal está muito mais “bem servido” de músicos, não só a nível dos intérpretes mas também dos criadores, do que aquilo que se pensa ou de que se tem uma imagem caótica. O País não é caótico, é sim é amarelado, pardacento… assim esquisito… E pensa-se que não há, mas há gente muito boa cá.
E, na realidade, tal como o século XX foi essa panóplia de opções, também em Portugal, houve figuras importantes. No fundo, você pode encontrar um representante português válido em cada Escola. Por exemplo, para um Bartok, tem um Graça; para o Joly, tem por exemplo um Vaughan Williams… quer dizer, não se pode comparar porque, se por acaso o seu modelo foi o Vaughan Williams, então o aprendiz tornou-se melhor que o feiticeiro… Tenho algumas obras do Joly e conheço-as bem e é seguramente melhor compositor!
E depois tem as linhas pós-Escola de Viena. Tem o Peixinho e outros compositores… E ainda tem novas correntes que vão surgindo. Ou seja, Portugal no século XX esteve ao mesmo nível daquilo que se estava a fazer nas várias Escolas. Se havia um Piazzola na Argentina, havia um Carlos Paredes cá, e por aí adiante...
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Relações entre géneros musicais diversos e que influência tiveram no desenvolvimento da sua obra?

Ora bem… a expressão “música ligeira”, para mim, está correctíssima. Aliás, acho que na maior parte do Mundo diz-se “música” e “música ligeira” à excepção de Portugal, em que se diz “música” e “música clássica”, não sei se já reparou nisso...? E é aí que está o erro… essa “agulha” é que afastou Portugal do resto do Mundo, porque há “música” e há “música ligeira” e não “música” e “música clássica”! Aqui, as criancinhas da Escola (e os pais das criancinhas já aprenderam assim) não sabem que existe uma Arte que vem da Grécia, que vem desde sempre, uma grande Arte, uma Arte superior, juntamente com a pintura, com a escultura, com a arquitectura, com a poesia, e é uma coisa chamada música. E essa arte é uma arte para ouvir. As pessoas pensam que a música é uma coisa para dançar e para cantar. E como lhes ensinam isso, associam sempre a música a um vocalista, a um cantor. Alguém tem de estar a cantar e tem de estar a dar ao pé e tem de estar a bater palmas… Essas parvoíces todas é que fizeram com que as pessoas não saibam que essa arte, a Música, é para ouvir e não necessariamente para cantar. Aliás, na maioria dos casos, quem decide que elas são dançáveis são os coreógrafos!
Como eu estava a dizer… a música ligeira é, quanto a mim, o nome adequado porque significa uma peça em que as ideias são apresentadas puras, sem serem desenvolvidas. É tão simples como isto: há um “a”, há um “b”, há um “a”, há um “b” e acabou. A partir do momento em que se faça um desenvolvimento das ideias, deixa de ser ligeira e isto não tem qualquer juízo qualitativo. O desenvolvimento até pode ser um aborrecimento horrível e as ideias podem ser péssimas!… Mas Gershwin, Cole Porter e todos aqueles compositores da Broadway e que construíram a grande “Música de Cinema” como Mancini ou Erroll Garner conseguiram encontrar compromissos extraordinários neste sentido, o que não quer dizer que a sua música seja ou não ligeira…
Por exemplo… na 4ª Sonata eu começo com uma peça que podia ser tocada num Bar, aliás, a ideia é essa, a tal ideia que vem antes tem muito a ver com isso. Ideologicamente é um zé-ninguém que vai lutando por ser qualquer coisa e nunca consegue chegar a nada… Depois há sempre uma frase que acaba cada secção e que diz “para-para-rara...” do género… “ olha, nada a fazer, ficamos sempre na mesma”. Essa frase e o início da apresentação do personagem é claro que é música de bar, é o que se quiser! Era isso que eu queria! Eu pus na música aquilo que quis!... Surge naturalmente em função das ideias que eu tenha...e, portanto, não me importo nada de pôr, se achar que é isso que me serve...
E não se esqueça que em Viena, nos anos 1960, se dizia que o Mahler era música ligeira! (Aqui ainda não se dizia mal porque nem se sabia que ele existia!) Em Viena, na Academia de Música de Viena! Alguns professores diziam-no!... Porque tem aquelas marchas, aquelas alusões à música dos irmãos Schrammel, aquelas Wiener Lied que aparecem ali assim… fora os Ländler, e outras coisas assim que até aparecem no Bruckner.
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Estilos de Composição, Linguagens, Experiências e Projectos

De facto, há vários estilos de composição em mim. Basicamente… eu gosto de me sentir um profissional. Ou seja: levantar-me, começar às nove e trabalhar até ás duas, depois almoçar ou comer qualquer coisa e depois, das três às sete. E não acredito na inspiração, a inspiração é uma coisa para amadores. Os amadores é que precisam de ir ao campo ver os passarinhos, e coisas assim... Imagine se o Mozart tivesse de se ir inspirar, era uma agência de viagens!… Não tinha hipótese nenhuma!
Eu tenho é essencialmente uma ideia… que não é musical. Tenho uma ideia de fundo, ideológica (entre aspas), filosófica, digamos assim, sobre aquilo que vou fazer e depois, durante um trabalho, de “operário”, vai saindo em resposta a essa ideia. Portanto, não é tanto dizer “Eu tenho um tema, ou tenho um encadeamento, ou uma série ou o que for, que acho que é muito bonito...,” Não. Eu primeiro penso e depois as coisas saem, a música é posta ao serviço das ideias que tenho... Isso acontece sempre. Claro que há peçazinhas pequeninas… mas também têm uma ideia sempre por trás.
Se me dessem a escolher – não sei se estou a falar totalmente verdade… não é que eu pretenda mentir, mas não sei se é correcto o que estou a dizer – mas, se me dessem a escolher, eu passava a vida a escrever para orquestra… Quer dizer… O que eu gosto é de escrever para orquestra e gosto de grande orquestra!... Sou portanto um pescador sem barco, sem mar, sem água!
Então o cúmulo, foram uns excertos da minha Ópera que foi feita no São Carlos… isso então nem tem nome! Uma Ópera que tem 600 páginas… só foram feitas 200! E dou-lhe a minha palavra de honra que não acredito que tenha sido tocado mais que 2% do que eu escrevi!…
Eu nem quis assistir à estreia mas depois lá me convenceram de que o Álvaro Malta e a Elsa Saque se estavam a esforçar… enfim… E é este tipo de coisas que faz muito mal à música portuguesa! E não só à minha… Também já ouvi interpretações horrendas do Graça!… Que não têm nada a ver com o que o compositor escreveu!
Mas voltando atrás… eu nunca fui chefe de orquestra... Sou sim um compositor que dirige. É uma coisa completamente diferente... Não se deve confundir o que é ser chefe de orquestra com aquilo que qualquer músico tem a obrigação de saber fazer e que é reger. E eu nunca serei chefe de orquestra! Claro que outra coisa é ter competência para tal e, entre mim e alguém que aparece e diz que é Maestro mas que afinal sabe muito menos do que eu… nesse caso, fá-lo-ei. E realmente também já dirigi mais do que eu pensava… talvez umas 80 vezes… Já dirigi todas as orquestras portuguesas, a Sinfónica de Viena, a Sinfónica de Linz, a Sinfónica de Praga, a Sinfónica de Sófia… enfim! Há falta de outras pessoas também vou (mas é fácil encontrar pessoas a reger muito melhor do que eu!…)
Também me dou bem com os músicos, sabe porquê? Porque os músicos percebem logo e eu dou-lhes logo a entender que sou mais um deles, que sou mais um músico e que não estou ali, para me mostrar enquanto Maestro. E porque só quero ver se os ajudo a compreender o que está escrito. Daí, o bom entendimento que se gera e, às vezes, até surpreendentemente, os bons resultados!
Em termos de marcos na minha carreira… Para mim, há uma linguagem que me é particularmente cara, de que gosto. É a linguagem que utilizei em obras gravadas, um pouco no quarteto de cordas, um pouco no Un Rêve d’un Rêve, em obras sinfónicas… A Pornofonia, por exemplo, é uma peça de que gosto muito, sinto-me muito à vontade… A Sinfonia também…– não esta mas sim a outra (porque antes tinha uma sinfonia nº 1 mas agora não ia chamar sinfonia nº 2 a uma sinfonia em que recuei aos 20 anos... de modo que a nº 1 passou a número 2, e esta passou a nº 1). A nº 2 nunca foi tocada cá, só em Pequim, pela orquestra de Pequim.
Um concerto de Oboé que fiz, por exemplo.... Gosto particularmente de uma peça que fiz para o Opus Ensemble que é o De Profundis que vai ser tocado por um decateto no dia 1 de Agosto e que não tem nada a ver, por exemplo, com Os três andamentos à procura de um Quarteto… Estas estão todas numa linguagem muito como a Sonata de Viola, que tem lá dentro um terceiro andamento completamente delirante e de repente há um slow fox (...), mas o slow fox tem a sua razão de ser, e essas agrupam-se (...). A Ópera, sem dúvida alguma, é das coisas que me estão “atravessadas”… claro (é óbvio!)… A Sinfonia de Vilar de Mouros, as Sinfonias (excepto a do Benfica, porque é diferente) e outras obras assim, estão na linha daquilo que eu considero o meu melhor. Também uns sonetos de Camões para Lied, duas canções do André Heller, que é para dois pianos e que nunca foi tocado (eu, pelo menos, nunca ouvi), mas tenho bastante confiança nisso, e há várias peças assim. Apesar de tudo verifiquei, ao abrir a colecção de alguma música de Câmara minha (que está aqui em três Cds), que as pessoas (e isto é o editor que fala) não queriam isso, ou melhor, não estavam à espera disso… Mas esta é a minha música, lamento!…
As Sonatas de piano, a primeira Sonata, a terceira Sonata, a sexta, a quinta... A quinta é outro estilo, é um bocadinho mais “felliniana”, digamos assim... Sobre a Segunda, por exemplo, tenho uma carta fantástica do Shostakovich… São obras que posso dizer que se identificam mais comigo. As outras... são todos meus “filhos”, nem que seja um Fado para o Carlos do Carmo! Mas a verdade é que são mais peças de circunstância, que eu faço para esta circunstância, para isto ou para aquela pessoa, para um filme... Tenho muito gosto em fazer e faço com o mesmo empenho. Mas não é exactamente aquilo onde eu me mais revejo ou em que me considero mais realizado. Já fiz umas 30 e tal obras que são fundamentais e há outras 30 e tal que ainda preciso de fazer!…
As obras surgem… O Decateto é uma encomenda para bons músicos. As peças de violino e piano também são encomendas de músicos. E eu sempre que possa fazer uma coisa que seja só para músicos, abro a tal gaveta que é aquela com a qual eu mais me identifico. Também posso fazer uma peça que tem outros objectivos circunstanciais… o festejo do Benfica, uma música de filme, ou outra coisa. E não menosprezo minimamente a música que faço para Cinema, ou para Teatro e que depois acabo por “esconder” ou reunir numa Suite, por exemplo. Tenho várias (do que eu chamo) Suites teatrais… músicas que fiz para o Burgo de Teatro de Viena, o Burgtheater de Viena, por exemplo… já fiz peças do Feydeau, da Simone de Beauvoir, do Tchekov e outros. Fiz muita música de Cena e continuo a fazer (ainda há dias voltei a fazer)... mas é uma música que tem pouco a ver com a peça e não é a tal gaveta onde eu me considero mais “dentro da minha própria música.
Completamente diferente… também gosto das Memórias do meu Sótão. Tem lá no meio um Can-can, ou lá o que é...! Fiz uma coisa a pensar no meu sótão e na grafonola que lá estava e que era da minha avó... depois, saiu aquilo. Normalmente é assim que faço: tenho a ideia e depois dou o nome. (…) O Saramago é que me contou que inventa um título e depois é que escreve um Romance sobre o título.
O Jorge Amado, por exemplo, disse-me uma vez que criava personagens. Os personagens existiam e ele depois tinha de inventar uma história para eles; não eram os personagens a servir uma história, mas sim uma história a servir os personagens.
Também gosto muito de improvisar, mas não sobrevalorizo muito. Não consigo… acho que há sempre qualquer coisa que não é verdade naquilo que não se escreve. Talvez seja por ser filho de advogado, acho que o papel escrito tem outra força do que aquilo que se improvisa. Mas, por exemplo, uma coisa que eu faço pela Província e que tenho muita pena que em Lisboa o público nunca tenha ouvido, são espectáculos comigo a improvisar, porque eu improviso bem, mas... às vezes!
Eu gostava, por exemplo, de fazer um espectáculo assim: “agora vou voltar ao piano, mas para fazer um concerto a improvisar, só, sem mais nada”. Pela Província eu faço isso muitas vezes! Mas eles lá não sabem se é improvisado, ouvem e acabou-se…
Agora, estou a fazer uma nova experiência com o Ricardo Rocha. Estou a escrever peças para guitarra portuguesa e piano. Acho que estamos a fazer um caminho excelente, com a Ingeborg Baldaszti e o Ricardo Rocha! Comecei por fazer uma coisa musicalmente simples, lá está, para a Ferreirinha, do Moita Flores, mas já escrevi uma Sonata para guitarra portuguesa e piano, e fica muito bem.