>> Parte I • raízes e educação
>> Parte II • acordeão
>> Parte III • composição
>> Parte IV • música portuguesa
>> Parte V • presente e futuro
· Que caminhos o levaram, por um lado, à interpretação no acordeão e, por outro, à composição? ·
Paulo Jorge Ferreira: Ao que consta, com a idade de cinco anos pedi aos meus pais para aprender Acordeão. Não existindo ainda na altura o ensino oficial do instrumento em escolas artísticas, comecei os estudos numa escola de música particular. Tive o privilégio de estudar com um fantástico professor (José António Sousa), que desde relativamente cedo me foi introduzindo repertório muito invulgar para aquela época. Desde então, (depois de ter naturalmente passado pelas peças de cariz popular/ligeiro) o meu interesse pelo acordeão tornou-se muito «sério». Era essa a «música» que me despertava! O estudo do instrumento começou a ser muito intenso, sempre com muita vontade de descobrir mais e mais.
Por volta dos meus quinze anos iniciei a participação em vários concursos internacionais, o que me levou a construir um amplo repertório, e a evoluir bastante técnica e interpretativamente. Com vinte e poucos anos, decidi então, que gostaria de ser músico profissional, o que para a altura era bastante desafiante, ainda para mais sendo acordeonista.... Tive sorte, foi correndo bem e com uma boa dose de resiliência, ainda cá estou!
Em relação à composição, tudo começou muito cedo, talvez até sem dar conta, pois desde sempre me divertia muito a «brincar» com o acordeão. Passava imenso tempo a inventar melodias, esquemas rítmicos e a tirar «sons estranhos» do instrumento. Portanto, a criação estava no meu «ADN». A escrever propriamente o que inventava, comecei a fazê-lo por volta dos dezoito anos. A paixão pela composição foi-se intensificando e, alguns anos passados, iniciei então a escrita musical com mais regularidade. Devo dizer que não fiz nenhum curso de Composição. Tudo o que escrevo, pelo menos no meu íntimo, não obedece a quaisquer regras, correntes ou estéticas musicais, é tudo muito espontâneo e faço-o com muita paixão.
· Que momentos da sua educação musical considera atualmente mais importantes? ·
PJF: Posso dividir estes momentos em três fases: início do estudo do Acordeão em criança, depois o trajeto musical até aos dezoito anos e, por fim, a altura em que fiz o curso de Acordeão.
O início do meu estudo de Acordeão foi muito divertido. Eu tinha uma excelente ligação afetiva com o meu professor, o que proporcionou, sem dúvida, um gosto enorme na aprendizagem do instrumento.
Em adolescente começou então um período de estudo «mais sério», com a abordagem a pouco e pouco, de obras de outra dimensão musical. O meu interesse pelo conhecimento de repertório, compositores e tudo o mais em torno do acordeão foi crescendo de forma muito rápida e consciente. É por esta altura que eu me «ligo» ao instrumento de uma maneira muito profunda.
Quando o curso de Acordeão foi oficializado, tive então um primeiro contacto com as outras vertentes da música, que me «disciplinaram» para um conhecimento musical mais alargado em termos gerais.
Não estava de todo habituado a «regras», disciplinas teóricas, etc., já que estudei numa escola particular, onde só me centrava exclusivamente no estudo do Acordeão. No entanto, esta adaptação foi rápida e de certa forma preparou-me para enfrentar alguns desafios menos interessantes, mas intrínsecos ao mundo profissional e real da vida artística.
· Quem são os seus mestres intérpretes no que diz respeito ao acordeão e à música em geral? ·
PJF: O meu professor, José António Sousa, foi incontornavelmente a pessoa mais diretamente ligada ao meu desenvolvimento artístico e ao facto de eu hoje ser músico profissional. Para além disso, era um músico excecional, embora não tenha tido o merecido reconhecimento dada a pouquíssima visibilidade que o acordeão de concerto tinha no seu tempo.
A nível internacional, posso afirmar que tenho muita admiração pelos acordeonistas Claudio Jacomucci (Itália), Mika Väyrynen (Finlândia) e Geir Draugsvoll (Dinamarca).
Outros músicos que admiro imenso são: Maria João Pires (piano), András Schiff (piano), Evgeny Kissin (piano), Truls Mørk (violoncelo), Itzhak Perlman (violino), Claudio Abbado (maestro), Daniel Barenboim (maestro) e Gustavo Dudamel (maestro).
· O que distingue a sua abordagem à interpretação e à performance no acordeão no panorama atual? ·
PJF: É uma questão extremamente difícil. Por norma, grande parte dos intérpretes têm a convicção que estão a «tocar bem». Por vezes, poderá não estar a acontecer exatamente o que pensamos... pois na verdade, o que ouvimos é uma pequena parte do que realmente executamos.
Enquanto intérprete, tento fazer uma leitura muito pessoal das obras que apresento em público. Por norma, não ouço gravações, de forma a não ser sugestionado em termos interpretativos.
Mais especificamente, em relação ao acordeão, tenho uma ideia muito própria da sonoridade a explorar no instrumento, diferenciando as diversas atmosferas musicais a criar, consoante os diferentes contextos e estéticas musicais apresentadas numa partitura.
O rigor musical foi um fundamento que me foi passado enquanto estudante e que assumi, desde sempre, como princípio básico na minha conduta enquanto músico profissional. Como intérprete, tento ser muito fiel ao texto escrito, privilegiando a intenção de ir ao encontro, o mais possível, das ideias musicais do compositor.
Um dos meus maiores objetivos em palco, é manter uma verdadeira comunicação com o público. Desse modo, na minha prática musical tento ser bastante criativo na abordagem interpretativa das obras que executo, para que esse «diálogo» com o público posso ser efetivamente real.
· Em que medida é significativo para si fomentar a criação de um novo repertório para acordeão? ·
PJF: É absolutamente essencial que sejam escritas, com regularidade, novas obras para acordeão. Deste modo, o desenvolvimento do instrumento vai ser notório em todos os aspetos. Devo dizer, que atualmente já existe uma quantidade significativa de repertório para acordeão, tanto a nível solístico, como em música de câmara e orquestra, oriundo dos mais diferentes pontos do globo. O crescimento da literatura para o instrumento tem evoluído imenso, mas mesmo assim, é importante que os acordeonistas mostrem assiduamente aos compositores, as incríveis potencialidades do instrumento.
O meu foco centra-se até mais no crescimento do repertório português, pois ainda existe pouca diversidade de obras de autores portugueses. Neste momento, temos uma quantidade/qualidade de acordeonistas bastante assinável no nosso país, que podem valorizar e projetar ainda mais o instrumento, através da performance de obras portuguesas de boa qualidade. O incremento de obras escritas para acordeão, proporciona que o instrumento esteja cada vez mais enquadrado no panorama artístico profissional a nível mundial.
· Na sua atividade como professor, que abordagem adota no ensino das novas gerações de acordeonistas? ·
PJF: Enquanto professor, tento dar uma formação o mais ampla possível a quem estuda comigo. Todos os meus alunos começam os seus estudos num acordeão de concerto (instrumento próprio ou do Conservatório Nacional). Desta forma, é possível desde logo, iniciar um processo de abordagem ao instrumento com um rumo bem definido, que lhes vai trazer benefícios a curto prazo. A diversidade de obras e compositores estudados ao longo do percurso de um aluno, é sempre um princípio que adoto, pois isto implica um conhecimento abrangente e eficaz do acordeão a todos os níveis. A clareza do texto musical a executar, a qualidade sonora e a criatividade na interpretação, são aspetos que procuro salientar como fundamentais para o sucesso de um aluno ou, de preferência, de qualquer futuro músico profissional.
· Até que ponto a sua prática como intérprete e a composição se complementam? ·
PJF: Realmente, no meu caso, a interpretação e a composição estão intimamente ligadas.
Por um lado, quando interpreto uma obra, coloco-me no lugar do compositor, tentando buscar a sua ideia/pensamento/propósito daquele gesto/fraseado/secção escrita. Na qualidade de compositor, ao escrever, também penso na probabilidade de satisfação da execução, do envolvimento com o texto escrito por parte do intérprete.
Como acordeonista, tenho sempre o intuito de explorar ao máximo as capacidades do instrumento quando interpreto uma obra. O conhecimento adquirido ao longo de muitos anos de um estudo profundo do acordeão, leva-me naturalmente a potenciar as qualidades sonoras, tímbricas e técnicas do instrumento, sempre que escrevo para este instrumento. Na verdade, a interpretação leva-me à composição e vice-versa.
· No contexto da música de arte ocidental, sente proximidade com alguma escola de composição ou estética do passado ou do presente? ·
PJF: Como disse anteriormente, não tenho formação académica em Composição.
Naturalmente, devo ter enraizado algumas influências da diversidade de música que ouvi ao longo dos anos, mas quando escrevo nunca me submeto, de todo, a nenhum género ou estilo de música. Tenho sempre a intenção, isso sim, que o resultado auditivo me agrade, nunca pensado se a obra está a soar de acordo com determinada corrente ou estética musical. O que me importa verdadeiramente, é que os músicos sintam gosto em tocar a minha música, que a mesma agrade e comunique com o público. Felizmente, do que me apercebo, isso vai acontecendo, o que para mim é motivo de enorme satisfação.
· No seu entender, o que pode exprimir e/ou significar um discurso musical? ·
PJF: O discurso musical, no meu entender, expressa o sentimento do autor. Este sentimento, no entanto, pode ter uma quantidade interminável de objetivos. Pode querer causar, através da música: angústia, alegria, dor, felicidade, etc.
No fundo, o que por vezes é difícil dizer por palavras, pode ser expresso pelos sons.
É evidente que quem ouve, terá sempre uma leitura muito pessoal destas sensações provocadas por um tal conjunto de sons produzidos. Em resumo, a conceção do discurso musical de uma obra, na minha opinião, tem sempre uma relação muito íntima com as experiências de vida do seu autor/compositor.
· O que entende por «vanguarda» e o que, na sua opinião, pode atualmente ser considerado vanguardista? ·
PJF: Na minha forma de pensar, a música de «vanguarda» alimenta-se numa ideia de «viagem para o futuro». Não está comprometida com normas ou regras, assentando no experimentar de ideias musicais peculiares e inovadoras.
Pode designar-se por compositor «vanguardista», aquele que apresenta na sua música novas formas de produzir som. A sua música tem um carácter abstrato, parecendo só existir num mundo irreal. Vai acontecer sempre — a música de vanguarda de ontem torna-se no som normal de hoje. Tal como Fernando Pessoa disse um dia: «Primeiro estranha-se, depois entranha-se»1
· No que diz respeito à sua prática criativa, começa por desenvolver a sua música a partir de uma ideia-embrião ou só o faz depois de ter elaborado uma forma global? Em outras palavras, parte da micro para a macro forma ou vice-versa? Como decorre este processo? ·
PJF: Na verdade, não inicio o processo de escrita sempre da mesma forma. Muitas vezes parto para uma obra, sem planear absolutamente nada do que vou fazer. Noutras ocasiões, tenho uma ideia prévia da linha musical que pretendo seguir. Mas, de uma maneira geral, posso dizer que tudo acontece muito espontaneamente, não tenho uma forma muito «pensada/organizada» de escrever música. Isto deve-se, penso, por um lado a não ter realizado formação em Composição e também à minha própria forma de estar na música. Acredito muito que a música terá tanto mais «sabor», quanto menos racional for no seu processo de criação. O «contágio» com o público é objetivo primordial na minha ideia de compor, por isso tento focar-me essencialmente no produto final e não tanto numa forma/ideia estruturada de elaboração da obra.
· Tente avaliar a situação atual da música erudita contemporânea em Portugal. O que, na sua opinião, a distingue no panorama internacional? ·
PJF: Pode-se afirmar que o panorama atual da música erudita contemporânea no nosso país é de enorme riqueza e vitalidade criativa, no entanto depara-se com uma realidade muito frágil em termos estruturais. Hoje temos em Portugal, uma geração magnífica de compositores e intérpretes de grande qualidade. O que falta é iniciativa política e estrutural que crie condições de estabilidade profissional para os músicos e que aproxime o repertório dos nossos dias do público em geral.
A música contemporânea portuguesa, em geral, tem determinadas caraterísticas muito próprias, como por exemplo, a ligação à literatura e poesia. Mantendo o rigor técnico da vanguarda europeia, a música portuguesa apresenta por norma grande sensibilidade no discurso musical. Por vezes, mesmo usando as técnicas mais atuais, inclui também elementos da música tradicional portuguesa.
· Quais são os seus projetos decorrentes e futuros? ·
PJF: Enquanto músico, tenho a intenção de realizar alguns registos fonográficos nos próximos anos. Neste momento estou a preparar a gravação de um disco com Sonatas de Domenico Scarlatti. Num futuro breve, irei gravar um CD com obras de compositores portugueses para acordeão solo (a mim dedicadas). Tenho igualmente o desejo de gravar outro disco, integralmente só com improvisos.
Como compositor, o meu objetivo no imediato é gravar mediante as oportunidades que surjam, o maior número possível das minhas obras para música de câmara. Pretendo também escrever em breve para determinadas formações de câmara padrão, e «inevitavelmente» tenciono escrever um concerto para acordeão e orquestra.
· Como vê o futuro da música de arte? ·
PJF: Acredito muito que a música erudita «tem futuro». No entanto, a meu ver, tem de sobreviver através da simplicidade, libertando-se do «museu». Todos temos de mostrar que a música que fazemos não é uma «coisa» complicada, é para ser ouvida por toda a gente. A barreira entre a música erudita e as «outras músicas» deve ser definitivamente abortada. As pessoas têm de perceber que nós somos «pessoas normais» e não intelectuais sisudos, só porque nos interessamos pela música clássica. Somos nós (músicos, compositores, maestros) que temos o dever de promover esta aproximação, de descomplicar, dizendo por exemplo, que a experiência de assistir a um concerto de música clássica ao vivo é única, que não é preciso ir de fato e gravata e que a música que vão ouvir é «gira e fixe»!
Paulo Jorge Ferreira
julho–agosto de 2026
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NOTAS DE RODAPÉ
1 Frase criada por Fernando Pessoa por volta de 1927 e 1928.
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Improviso (2022) Paulo Jorge Ferreira (acordeão). Gravação de 19 de março de 2022, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa. |
Touch (2020) Stretto Duo: Catherine Strynckx (violoncelo) e Paulo Jorge Ferreira (acordeão). CD Escape (Artway, 2023). |
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Pattern (2017–2018) Astrus Duo: Manuel Teles (saxofone tenor), Paulo Amendoeira (vibrafone). CD Ascolta! (MPMP Património Musical Vivo, 2022). |
Estudo n.º 19 de 24 Estudos (2013–2020) Fábio Palma (acordeão). Gravação de 3 de outubro de 2025, Auditório da ISEG, Lisboa. |
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| Estudo n.º 18 de 24 Estudos (2013–2020) José Valente (acordeão). Gravação estreada no YouTube a 27 de dezembro de 2024. |
Improvisata (2003) Paulo Jorge Ferreira (acordeão), Sinfonietta de Braga, Jean-Marc Burfin (maestro). Gravação de 21 de julho de 2023, Theatro Circo, Braga. |
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| CD Contemporary Works for Accordion (Calanda Music, 2019) Paulo Jorge Ferreira (acordeão). Obras de Alexander Pushkarenko, Arkady Tomchin, Jesper Koch e Paulo Jorge Ferreira. |
CD Percursos (Numérica, 2004) Paulo Jorge Ferreira (acordeão). Obras de Anatoly Surkov, Astor Piazzolla, Ernesto Lecuona, Hans-Günther Kölz, Johann Strauss II, Léon Boëllmann, Paulo Jorge Ferreira, Viktor Vlasov, Vitorino Matono e Wolfgang Amadeus Mozart. |
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