· Descreva as suas raízes familiares, culturais e sonoras/musicais, destacando um ou vários aspetos essenciais para a definição e a constituição de quem é no tempo presente. ·
Sofia Sousa Rocha: A minha família não tem qualquer tradição musical, mas o meu gosto pela música foi impulsionado pelo facto do meu pai ouvir muita música orquestral e de ter frequentado, desde cedo, aulas de ballet. Foi a partir desta experiência que comecei a estudar piano aos sete anos e a procurar continuar a minha formação musical nos anos seguintes. Ingressei no Conservatório com onze anos onde comecei a estudar violino. O meu contacto com a composição também aconteceu desde muito cedo, com treze anos, o que tornou a opção pelo Curso de Composição no ensino secundário muito natural.
· Quando percebeu que se dedicaria à composição? ·
SSR: Julgo que essa decisão foi tomada ao longo do ensino secundário e foi consolidada após o meu ingresso no Curso Superior de Composição. Encarei desde sempre esta área com muita seriedade e tive experiências muito próximas do contexto profissional desde cedo. Complementarmente, sabia que o meu futuro passaria sempre pelo ensino da música, profissão que me lembro de «exercer» desde a infância. Julgo que estive sempre muito consciente da necessidade de agregar o ensino e a composição como forma de garantir uma profissão com rendimento regular. Neste caso, julgo ter conseguido aliar o sonho ao meu habitual pragmatismo.
· O seu caminho é traçado de acordo com um plano? Sabe, por exemplo, que daqui a «x» anos vai cumprir os objetivos «y»? Ou acha a realidade demasiado caótica para estabelecer tais determinações? ·
SSR: Não tenho propriamente um plano. Vou gerindo a minha carreira como docente e como compositora, conjugando-a com a vida pessoal. O espaço que a composição ocupa na minha vida é relativamente limitado e é gerido em função das encomendas que vão surgindo. O planeamento é feito de ano a ano uma vez que não tem sido possível antecipar muito mais o trabalho que surge.
· Quais são as suas principais preocupações artísticas e criativas no presente? ·
SSR: Estou a escrever uma nova ópera por isso as minhas principais preocupações centram-se na procura de uma coerência da obra, conjugando a música com o texto e a encenação. É a segunda obra com grandes dimensões que escrevo e sei que a dedicação a uma obra mais extensa implica um trabalho muito contínuo, com a exigência de dar espaço ao texto e a todo o conjunto de questões que a música para cena engloba.
· Em que medida é que a circulação entre os universos acústico e eletroacústico tem vindo a enriquecer a criação musical das últimas décadas? A sua música é influenciada por estas duas práticas? ·
SSR: O universo eletroacústico esteve sempre muito presente na minha formação como compositora. Sinto que atualmente não é o meu meio de expressão preferencial e que não tenho conseguido dedicar tempo à pesquisa de novas ferramentas. Porém, nutro um certo fascínio por esta área e tenho muita vontade de incluir este universo no meu discurso musical.
· Que importância tem o silêncio na sua música? ·
SSR: Respondo a esta questão com uma provocação. O silêncio é de ouro. Só consigo trabalhar com silêncio. Diria até que só há música se houver silêncio à minha volta. Ora, a minha realidade habitual é haver barulho de crianças de forma mais ou menos constante, quer na escola, quer em casa. Por isso valorizo muito o silêncio como forma de expressar a minha criatividade. O silêncio é espaço. Talvez consiga encontrar esse espaço nas minhas obras — talvez não seja silêncio puro, mas é espaço para que a música se expresse sem vestígios do bulício habitual que habita os meus dias.
· Quais são as fontes extramusicais que podem servir de ponto de partida, inspiração ou suporte para a sua composição musical? ·
SSR: As minhas fontes extramusicais são essencialmente literárias. Pode ser um texto, um poema, um libreto. É a especificidade da encomenda que dita o que vou trabalhar e é o conteúdo do texto que determina/condiciona a ideia musical. Em retrospetiva, as seis obras compostas nos últimos cinco anos incluem duas óperas, duas obras vocais e instrumentais e duas obras puramente instrumentais. Diria que tenho centrado a minha produção na ligação estreita à palavra.
· Na sua opinião, e de acordo com a sua postura estética e experiência, o que pode exprimir um discurso musical? ·
SSR: O discurso musical pode dar tempo e espaço ao pensamento livre, sugerindo imagens, ideias, emoções. Pode também ser fruição pura ou colocar-nos perante dilemas, dúvidas ou incertezas. No fundo, considero que o discurso musical comunica tanto com o(s) intérprete(s), como com o público e pode fazê-lo das mais diversas formas. O discurso musical é comunicação.
· Na sua opinião, e de acordo com a sua postura estética e experiência, o que pode exprimir um discurso musical? ·
SSR: O discurso musical pode dar tempo e espaço ao pensamento livre, sugerindo imagens, ideias, emoções. Pode também ser fruição pura ou colocar-nos perante dilemas, dúvidas ou incertezas. No fundo, considero que o discurso musical comunica tanto com o(s) intérprete(s), como com o público e pode fazê-lo das mais diversas formas. O discurso musical é comunicação.
· Em que sentido é que a invenção e a pesquisa constituem elementos indissociáveis da criação musical e, de um modo geral, da arte? ·
SSR: Considero que ambas estão intrinsecamente ligadas. Pesquiso para inventar, invento também porque pesquiso. Entendo pesquisa como procura constante, como forma de reinventar o que somos. E esta pesquisa é também o que vivemos, o que lemos, o que ouvimos, o que vemos. É uma forma de pesquisa muitas vezes indireta e quase inconsciente.
· Como ouve música? É um processo mais racional ou emocional? ·
SSR: Ao tentar responder a esta questão não sei se consigo dissociar as duas dimensões aparentemente antagónicas. Gosto de perceber qual a sensação de que a música me transmite, seja mais positiva ou mais negativa, mas, ao mesmo tempo, talvez seja inevitável fazer uma escuta mais «analítica», de atenção aos detalhes melódicos, harmónicos, rítmicos, tímbricos, formais... Não sei se é um «defeito» profissional ou se é uma vantagem que se desenvolve com o tempo. Tento posicionar-me entre as duas hipóteses.
· Na entrevista concedida ao mic.pt em 2016 o compositor João Madureira afirmou que «a música é filosofia, é política, e que, por sua vez, é uma forma de habitar o mundo» 1. Sente proximidade com esta afirmação? ·
SSR: O trabalho de um artista é sempre uma forma de habitar o mundo. Enquanto indivíduo, posiciona-se relativamente à realidade que o rodeia e, por muito que se diga apolítico ou sem proximidade com questões filosóficas ou outras questões sociais é enquanto pessoa que se exprime — com crenças, com opiniões, com a(s) sua(s) verdade(s). Creio que, apesar disso, o impacto desta forma de habitar o mundo é bastante diminuto. O artista pode refletir sobre o mundo, mas não consegue transformá-lo. Apesar desta visão pragmática aparentemente pessimista, se ambicionarmos agir sobre uma pessoa que seja, já conseguiremos um impacto que nos poderá realizar e satisfazer enquanto artistas.
· Na sua atividade, existe oposição entre «a profissão» e «a vocação»? ·
SSR: Sinto que faço o que gosto. Sou feliz com a escolha de ser professora e com a possibilidade de conjugar a minha profissão com a vertente da composição.
· Prefere trabalhar sozinha, na «tranquilidade do campo», ou no meio do «alvoroço urbano»? ·
SSR: A situação ideal para mim encontra-se no espaço entre as duas situações. Gosto da «tranquilidade urbana» da cidade em que vivo — Braga — que, no contexto do país é uma cidade de média dimensão. Já referi que preciso de silêncio e tranquilidade para trabalhar o que só é possível criando espaços temporais mais ou menos limitados. Durante muito tempo remeti a composição para o plano dos tempos livres, com seu prejuízo, ou para as férias. Neste momento, estou a trabalhar no Conservatório a tempo parcial, permitindo-me conjugar as dimensões da minha vida pessoal, profissional e artística de forma mais ou menos equilibrada.
· Selecione e destaque três obras do seu catálogo, justificando a sua escolha. ·
SSR: Optei por selecionar obras mais recentes.
Ópera Lugar Comum (2021–2022). É uma ópera que compus para o Quarteto Contratempus, com libreto de Mário João Alves. Trata a problemática da violência contra a mulher e foi estreada no Rivoli no Porto. Servindo-me das palavras da poetisa Yvette Centeno no seu poema Mulher parti à descoberta deste Lugar Comum: «quando o ventre é a fonte / quando o ventre é a forca». Estas palavras fizeram-se música e modelaram a génese desta ópera. Outros gestos se juntaram a este. A pesquisa por novos elementos sonoros que me fizessem contar esta história vezes sem vez encontraram o abismo e lentidão de Messiaen da sua obra emblemática Quatour pour la Fin du Temps. Renasce a esperança de que os tempos mudem e contrariem a voragem dos nossos dias e destas nossas histórias. Diz Messiaen que, na sua obra, os pássaros simbolizam o nosso desejo de luz, de estrelas, de arcos-íris. Há também esperança de que a lentidão nos contagie e que torne este tempo um passado distante. Milhares de mulheres apagadas. Haverá fim para esta história?
Jogos (2023). Esta obra foi escrita para o Sond’Ar-te Trio e resulta da encomenda da Miso Music Portugal e do Festival Internacional da Primavera de Viseu. A obra está estruturada em quatro andamentos e parte de um gesto muito característico das cordas de arco, isto é, a oscilação da mesma altura utilizando cordas diferentes e da exploração das quintas perfeitas em cordas soltas.
Quatro canções de luz e de sombra (2023). Foi encomendada pelo Síntese – Grupo de Música Contemporânea, que inclui uma soprano, um saxofone, um acordeão e quarteto de cordas. Os textos de Eugénio de Andrade pertencem ao livro de poesia O peso da sombra. Procurei nesta obra explorar a diversidade tímbrica dos instrumentos disponíveis.
· Poderia revelar em que está a trabalhar neste momento e quais são os seus projetos artísticos para os próximos anos? ·
SSR: Neste momento tenho dois projetos para 2026: estou a compor uma obra para orquestra de sopros e uma ópera para quatro cantores solistas e orquestra que estreará em outubro de 2026.
· Tente avaliar a situação das compositoras e dos compositores de música erudita contemporânea em Portugal, referindo as suas principais preocupações. ·
SSR: Julgo que é difícil fazer projetos a médio e longo prazo porque existem debilidades estruturais que impedem que os compositores desenvolvam a sua atividade em pleno. Felizmente têm existido mais oportunidades de trabalho associadas a projetos que se localizam fora do contexto de Lisboa e Porto. Mais do que as grandes instituições, são estes os principais agentes que contribuem para os projetos que vão surgindo como oportunidades de trabalho para a maior parte dos compositores.
· Como mudam as estruturas hierárquicas na música clássica e contemporânea num mundo moderno globalizado, no que diz respeito às relações interpessoais e interinstitucionais? ·
SSR: Colaboração é a palavra-chave tanto para o artista enquanto indivíduo, como para as instituições que fomentam a criação e a circulação das obras. No campo musical, existem muitos projetos de pequena dimensão que procuram um espaço de expressão mais abrangente, criando projetos multidisciplinares, com diferentes formas de expressão. Há uma tentativa de desmistificar um certo peso da música clássica e contemporânea, aproximando-a de diferentes públicos. Estas pequenas estruturas, geridas localmente são, na maior parte dos casos, impulsionadas por financiamento público o que, infelizmente, apoia mais frequentemente a criação do que a circulação das obras e dos espetáculos. É necessário um trabalho muito persistente para que estes projetos subsistam e tenham alguma visibilidade. Na minha perspetiva, para a maior parte dos compositores portugueses, são estes os principais agentes que fomentam a criação musical. São cada vez mais frequentes os projetos multidisciplinares e/ou colaborativos e os projetos que resultam de parcerias entre várias instituições. Julgo que estas mudanças que têm vindo a acontecer só favorecem a criação, potenciando o alcance que estes projetos podem atingir. É também através destas propostas que o compositor se reinventa, procurando dar resposta a novos desafios.
· Se não tivesse seguido o caminho da composição musical, que outro caminho teria escolhido? ·
SSR: Soube desde cedo que o meu futuro estaria ligado à música e, particularmente à composição. Não imagino nenhuma outra área à qual pudesse estar atualmente ligada.
Sofia Sousa Rocha
fevereiro de 2026
© mic.pt
NOTAS DE RODAPÉ
1 Entrevista a João Madureira conduzida pelo mic.pt em outubro de 2016 e disponível em: LIGAÇÃO.
| Entrevista Na 1.ª Pessoa com Sofia Sousa Rocha conduzida por Pedro Boléo. Gravação do O’culto da Ajuda em Lisboa (2022.05.02). |
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| Caminhos – dor, luz e esperança (2023) Coro e Orquestra do Distrito de Braga, sob a direção de Inês Teixeira. Concerto comemorativo dos 25 anos do cortejo bíblico Vós sereis o meu povo, Igreja de São Victor, Braga, 2 de junho de 2023. |
Jogos (2023) Sond’Ar-te Trio: Vítor Vieira (violino), Filipe Quaresma (violoncelo), Elsa Silva (piano). Gravação do O’cutlo da Ajuda, em Lisboa, 13 de maio de 2023. |
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| O regresso do Elefonte (2018) Zeferino Pinto (trombone) e Marlene Fernandes (piano). |
Por um dia igual (2014) Kla-Vier Duo: Patrícia Ventura e Sónia Amaral (piano a quatro mãos). |
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| não sei... (2004) Samuel Castro Bastos (corne inglês). CD: Samuel Castro Bastos – Obras Portuguesas para Oboé (ano de edição: 2022). |
Homenagem a Berio (2003) Peça eletroacústica. |
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Fala do velho do Restelo ao astronauta (2014)
Na interpretação do Sond’Ar-te Electric Ensemble, Miguel Azguime (narrador), Pedro Neves (maestro). CD: Sond’Ar-te Electric Ensemble – Diz-Concerto [ed. Miso Record · MCD39.15].
Um e um (2008)
Gravação: 20 de março de 2009 · Concerto de Encerramento do 7.º Workshop da Orquestra Gulbenkian para Jovens Compositores Portugueses · Grande Auditório, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.