Em maio, a secção Em Foco do mic.pt é dedicada a Eli Camargo Júnior, no âmbito do 70.º aniversário deste compositor e professor, para quem a música é um «"supercondutor" feito de som».
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A Mãe Terra emite gemidos profundos que se fundem com os que ecoam pelo mundo humano. Formam um lamento coletivo que clama por uma nova direção. Invoca-se o mar diante do qual encontramos a redenção através da sua força. As águas revoltas somam e simbolizam as lágrimas de um mundo ferido. Cada lágrima flui delicadamente, uma a uma, ao longo do discurso. No final, cita-se Lobo Antunes — «Continua a surpreender-me o número de recordações que se podem pendurar lado a lado no fio de uma lágrima.» Apesar do texto ser apresentado de forma direta e precisa, a cantora transcende essa clareza ao materializar a imagem gerada por este: segura um fio estendido entre as duas mãos e com os braços esticados vira-se para a audiência e eleva-os ao nível do peito. Solta uma das extremidades do fio. O seu deslizamento simboliza a rutura e a desconexão. As memórias existem, mas são deixadas de lado para que se possa progredir.
O discurso é estruturado em sete secções, com recorrência, sendo uma delas ampliada no final. O texto foi construído com base nos poemas de Antero de Quental. A sua interpretação é pessoal e alinha-se com os instrumentistas que também o interpretam. O estilo do canto não é sempre convencional, mas sim uma forma de recitação, com murmúrio, gemido, grito, suspiro e o canto delicado que evoca um pranto. A utilização do sopro simboliza o vento que transporta as sílabas/palavras. O desempenho de cada instrumento/instrumentos surge unicamente quando é pertinente e se torna relevante no contexto do discurso. A apresentação total é minuciosamente descrita, englobando a disposição no palco, a performance da cantora e, conforme já mencionado, a utilização do texto por todos os envolvidos.