Em foco

Hugo Vasco Reis


Questionário / Entrevista

Parte I · raízes e educação

Como começou para si a música e onde identifica as suas raízes musicais?

Hugo Vasco Reis: O processo de descoberta dos sons sempre foi um aspecto ao qual estive ligado, mesmo quando desconhecia o seu potencial e possibilidades. Na minha família não havia tradição musical, mas havia em casa um piano eléctrico, uma flauta e alguns instrumentos de percussão. Como não existiam escolas de música em Caminha (onde passei a infância) e Chaves (onde passei a adolescência), fazia experiências de improvisação de forma a produzir sons, que posteriormente gravava. Aos 13/14 anos os meus pais ofereceram-me uma guitarra clássica e poucas semanas depois, um amigo emprestou-me uma guitarra eléctrica. Com este instrumento, começou realmente o meu interesse consciente pela música. Ouvia sobretudo heavy metal. Comprava diversas revistas de guitarra, principalmente da Alemanha e Estados Unidos, com exercícios do Steve Vai, Joe Satriani e Kirk Hammett e passava horas a tirar de ouvido os solos dos Metallica e de outras bandas. Foi assim durante uns quatro ou cinco anos.

Quando fui para a universidade, estudar engenharia civil, no Porto, a par dos estudos académicos, frequentei a Escola de Jazz do Porto e mais tarde o Conservatório de Música do Porto, este último já na classe de guitarra portuguesa, instrumento que toco actualmente.

Concluí o curso de engenharia civil e trabalhei durante sete anos nessa área. Durante esse período estive sempre ligado à música, até que houve uma altura em que tomei a decisão de diminuir a actividade na engenharia e dedicar-me à música. Queria aprofundar os meus conhecimentos em composição. Mudei de cidade, do Porto para Lisboa, e estudei composição na Escola Superior de Música de Lisboa. Durante esse período estudava música contemporânea durante o dia e tocava guitarra portuguesa, em casas de fado, à noite. A abrangência musical era muito grande, pois estes dois universos musicais têm muitas diferenças e por vezes tinha dificuldade em lidar com isso. Mas por outro lado também era uma forma eficaz de não estar sempre absorvido pela mesma música.

Que caminhos o levaram à composição?

HVR: Durante a infância e adolescência, experimentava sons, instrumentos, gravava, improvisava... Um processo algo caótico e sem qualquer pretensão. Fazia porque gostava. Aos 13/14 anos surgiu o interesse por tocar guitarra eléctrica e pelo heavy metal. Por volta dos 23 anos comecei a tocar guitarra portuguesa e a descobrir os trabalhos de Artur Paredes e Carlos Paredes. Pouco tempo depois, começou o meu interesse por compositores como Claude Debussy, Charles Koechlin ou Dmitri Chostakovich. Nessa altura esses compositores representavam para mim o grau máximo na música. Aos 32 anos decidi focar-me na composição e fui estudar para a Escola Superior de Música de Lisboa. Agora que escrevo isto e organizo as ideias, acho que o meu percurso anda 10 anos atrasado em relação ao convencional. Actualmente dedico-me à composição, diariamente e de forma metódica, trabalhando regularmente com diversos músicos e ensembles.

Que momentos da sua educação musical se revelam, hoje em dia, de maior importância para si?

HVR: Considero dois momentos importantes na minha educação musical. A admissão no Conservatório de Música do Porto (pela descoberta de uma educação musical que até então desconhecia) e a admissão na Escola Superior de Música de Lisboa (pela confirmação do meu interesse pela pesquisa e criação).

No Conservatório de Música do Porto entrei na classe de guitarra portuguesa, onde naquele tempo eram admitidos alunos com mais idade do que o convencional, dado que a classe tinha começado recentemente. Descobri os trabalhos de Artur Paredes e Carlos Paredes, ao mesmo tempo que Johann Sebastian Bach, Claude Debussy, Charles Koechlin ou Dmitri Chostakovich. Achava muito interessante o estudo desses dois ambientes tão distintos e estava muito interessado em aprender.

Na Escola Superior de Música de Lisboa tive a oportunidade de estudar com um grupo de professores que aumentou, ainda mais, o meu interesse pela pesquisa e criação. Conheci diversas formas de criação musical dos Séculos XX e XXI, a sua relação com outras artes, e tive finalmente a oportunidade de ver as minhas peças interpretadas. Foi um mundo novo e emocionante. Irreversível…

Parte II · influências e estética

Que referências do passado e da actualidade assume na sua prática musical?

HVR: As referências são muitas, e vêm de diversas tradições tais como a música erudita, o fado, o heavy metal ou a música electrónica.

No que respeita à música de tradição erudita, faço audições regulares de compositores como Thomas Tallis, Johann Sebastian Bach, György Kurtág ou George Crumb, os quais são para mim uma grande referência, e sinto que cada um deles coloca no seu processo de criação elementos próximos da espiritualidade.

Charles Ives, Bernd Alois Zimmermann, Karlheinz Stockhausen, György Ligeti, Giacinto Scelsi, Iannis Xenakis ou Morton Feldman também são referências incontornáveis das minhas audições.

Sigo com muita atenção a criação e a literatura de compositores consagrados dos nossos dias, como Sofia Gubaidulina, Pascal Dusapin, Kaija Saariaho, George Friedrich Haas, Beat Furrer, Michael Jarrell, Toshio Hosokawa, Toru Takemitsu, Salvatore Sciarrino, Helmut Lachenmann, Wolfgang Rihm, Chaya Czernowin ou Unsuk Chin. De facto, dedico muito tempo a ouvir e a ler estes compositores e estas compositoras. É uma espécie de aula de alto rendimento.

No seu entender, o que pode exprimir e / ou significar um discurso musical?

HVR: De uma forma sucinta, no meu entender, o discurso musical significa a comunicação entre todos os agentes que o realizam ou o percepcionam, enquanto fenómeno material e imaterial. Compositores, intérpretes e audiência.

Existem fontes extra-musicais que de uma maneira significante influenciem o seu trabalho?

HVR: Sim. A pintura, escultura, design e multimédia. As artes plásticas e visuais têm um impacto muito grande na comunicação e apresentação efectiva do meu discurso, acrescentando à criação musical, aquilo que considero como um poder de atracção. Visito frequentemente exposições, e no meu dia-a-dia contacto com vários artistas plásticos e visuais. Esta aproximação a fontes extra-musicais funciona muitas vezes como ponto de partida para o processo de criação, através da sugestão de formas intuitivas, gestos, camadas, imagens e focos, que me conduzem a uma maior reflexão e clarividência na escrita musical.

No contexto da música de arte ocidental, sente proximidade com alguma escola ou estética do passado ou da actualidade?

HVR: Não sinto que esteja próximo de alguma escola ou estética do passado ou da actualidade. As minhas peças não têm unidade suficientemente consistente para as enquadrar num determinado estilo ou tendência. Também não estou à procura disso enquanto componho. Oiço muita música e mantenho-me actualizado em relação às novas criações de outros compositores, as quais são muito diversas. Todos os dias oiço música nova, acabada de apresentar. Faz parte do meu método de trabalho.

Existem na sua música algumas influências das culturas não ocidentais?

HVR: Tenho uma ou outra peça que inclui elementos de culturas não ocidentais, estou a lembrar-me por exemplo da peça A Cor do Pensamento (2016), cujo processo de criação foi inspirado numa viagem que fiz à Índia. Mas de uma forma geral, não existe na minha música esse tipo de influência.

Parte III · linguagem e prática musical

Há algum género / estilo musical pelo qual demonstre preferência?

HVR: As minhas preferências são muitas e de diversas tradições, tais como a música erudita (à qual me dedico como compositor), o fado (ao qual me dedico como intérprete de guitarra portuguesa), o heavy metal (música que ouvia na adolescência, e ainda oiço esporadicamente) e a música electroacústica (à qual me dedico também como compositor).

Oiço outros géneros / estilos musicais, mas estes são os que mais relevância têm. Música erudita, fado, heavy metal e música electroacústica, são mundos com poucos pontos de contacto, apesar de identificar alguns. São géneros / estilos musicais genuínos, que assumem uma grande autenticidade. Na minha opinião, e misturando-os, são exemplo disso o Glenn Gould (pianista), o Alfredo Marceneiro (fadista) ou Lemmy Kilmister (líder dos Motörhead). Foram aquilo que foram e dificilmente seriam outra coisa. Foram autênticos, genuínos e honestos, factores que considero fundamentais na arte.

No que diz respeito à sua prática criativa, desenvolve a sua música a partir de uma ideia-embrião ou depois de ter elaborado uma forma global? Por outras palavras, parte da micro para a macro-forma ou vice versa? Como decorre este processo?

HVR: Na minha prática criativa trabalho em primeira instância do micro para o macro e em seguida do macro para o micro.

Inicio qualquer processo de criação baseado numa reflexão e posterior pesquisa. Assimilo a reflexão e trabalho os gestos musicais que a medeiam, no tempo e no espaço. Os gestos são moldados e percepcionados, constituindo um mapa e uma forma. Está assim definida a estrutura macro do processo de criação. Nesta fase inverto o método e começo a trabalhar o detalhe de cada gesto, do macro para o micro, até ao limite necessário, concluindo a peça.

Apesar do descrito ser a forma como tendencialmente trabalho, assumo que é uma descrição algo romântica, pois enquanto componho, existem sempre questões e dúvidas que conduzem o discurso para algo não planeado. São grandes desafios e fico entusiasmado (às vezes fico furioso…).

Como na sua prática musical determina a relação entre o raciocínio e os “impulsos criativos” ou a “inspiração”?

HVR: Na minha prática musical está sempre presente o aspecto racional, emotivo e a necessidade interior de criar, de dizer algo. Se algum dia deixar de ter esta necessidade, faço uma pausa ou mudo de actividade. Não estaria a ser honesto na criação.

Interessa-me particularmente a relação: som, introspecção, percepção. Esta relação está em constante variação, e devo estar atento ao seu processo evolutivo, entender o Eu e o fenómeno acústico. Isso ajuda-me a situar, a filtrar e a compor. Descobrir em cada detalhe o som, o silêncio e a expressão, e revelar o meu mundo de sentimentos. Pretendo que soe genuíno e individual.

Que relação tem com as novas tecnologias, e em caso afirmativo, como elas influenciam a sua música?

HVR: O termo novas tecnologias é muito abrangente. Mas posso dizer que utilizo com frequência diversos programas que me ajudam na actividade de compositor, pois trabalho com electrónica, multimédia, design, captação, edição e masterização de áudio. São de facto ferramentas indispensáveis à minha criação e produção.

O experimentalismo desempenha um papel significante na sua música?

HVR: Sim. Algumas peças do meu catálogo têm uma grande componente experimental. São peças que apesar de possuírem algum tipo de gestos condutores, podem ser apresentadas de forma muito distinta, dependendo do intérprete e do espaço. Estou a lembrar-me das peças Linea (2018), Transparent(e) (2017) ou Rizoma (2018). Compositores ligados a técnicas experimentais como Charles Ives, John Cage ou Jorge Peixinho têm influência na minha música.

Nas peças que tenho escrito ultimamente, apesar de estar escrita toda a informação, tenho sempre presente a ideia de “nem demasiado determinado, nem demasiado aleatório”. Assim o discurso de cada peça varia entre o definido e o indefinido, cabendo ao intérprete encontrar a atitude e expressão para cada momento. Os intérpretes são a voz do compositor e é com eles que procuro trabalhar de forma próxima e regular. Intérpretes que se tornam parte da criação e experimentação, e com os quais tenho a oportunidade de falar, debater, conviver, crescer... Este aspecto é algo que quero preservar, pois acrescenta muita humanidade ao processo de criação, da qual não abdico.

Quais as obras que pode considerar como pontos de viragem no seu percurso?

HVR: Não considero que alguma obra do meu catálogo tenha sido um ponto de viragem. Durante o processo de criação torna-se necessário questionar. São problemas que requerem respostas. Essas respostas resultam das memórias e experiências, nas quais o corpo é o mediador entre o mundo e a criação. Respostas suscitam novas questões, e assim, cada nova criação é sempre uma obra aberta. Quando concluo uma peça, assumo esse momento como uma pausa, não como o fim do processo. O processo continua na peça seguinte, e na seguinte...

Parte IV · a música portuguesa

Tente avaliar a situação actual da música portuguesa.

HVR: Vou avaliar unicamente a música portuguesa dos nossos dias, de tradição erudita, dado o contexto desta entrevista.

Faço uma análise pessoal através daquilo que sinto, sob três vértices: músicos (inclui compositores, intérpretes e maestros), público e instituições.

Músicos, estão em alta. Existe uma inegável qualidade, quantidade e diversidade, no que respeita a compositores, intérpretes e maestros. Actualmente são muitos os que se destacam, mesmo tendo a dificuldade de Portugal ser um país periférico na tradição erudita, apesar da evolução registada. Vale a pena estar atento e ouvir os seus trabalhos.

Público, está igual. Embora haja uma maior sensibilização para a arte contemporânea, e a sua criação, a memória colectiva do público aceita melhor o que consegue identificar, compreender, e isso cria limites à percepção da digamos “arte de vanguarda”. Esta lógica é universal e estou confortável para o afirmar pois já assisti a centenas de concertos de música contemporânea, em Portugal, Áustria, Itália, EUA… e o cenário não altera muito.

Instituições, não quero falar. O meu trabalho como compositor é com os músicos e com os maestros. O território das instituições, a meu ver, é político e de comércio.

Como define o papel de compositor hoje em dia?

HVR: Na minha opinião, o papel do compositor, hoje e sempre é, de alguma forma, superar o tempo, encontrar processos de criação baseados no pensamento, reflexão e mensagem, que o torne individual e genuíno, e ter a capacidade de apresentar ideias novas e de ser sincero.

Parte V · presente e futuro

Quais são os seus projectos decorrentes e futuros?

HVR: Tenho neste momento várias encomendas, nas quais irei trabalhar até meados de 2020, para solistas ou ensembles. Uma peça para trio de guitarras, para o Trio Elogio (Croácia), a estrear em Zagreb. Uma peça recentemente estreada para clarinete e piano (Colors Seen in Silence I, a 21 de Setembro no Auditório Municipal de Castelo de Paiva), para o Victor Pereira e o Vítor Pinho. Uma peça para clarinete e electrónica, para o Victor Pereira, com estreia na Casa da Música, num programa que inclui obras de Pierre Boulez e Gérard Grisey. Uma peça para acordeão, teorba, guitarra e electrónica, para o Azione_Improvvisa Ensemble (Itália), a estrear em Milão. Uma peça para saxofone e electrónica, para o Henrique Portovedo, a estrear em Trento (Itália), no 3.º Congresso Europeu de Saxofones. Uma peça para cravo, kannel (instrumento de cordas dedilhadas da Estónia) e harpa, para o Una Corda Ensemble (Estónia), a estrear no Arvo Pärt Center, na Estónia. Uma peça para flauta e piano, para o Marco Pereira e a Lígia Madeira. Uma peça para flauta baixo e clarinete baixo, com estreia em Estrasburgo (França). E uma peça para coro, a estrear pelo Nova Era Vocal Ensemble, dirigido pelo maestro João Barros.

Irei produzir alguns trabalhos discográficos de músicos portugueses, dedicados à música contemporânea, os quais a seu tempo serão divulgados.

Tocarei também brevemente a solo, num recital de guitarra portuguesa, no Conservatório de Música de Vila do Conde, onde irei interpretar peças minhas, do Carlos Paredes e do Pedro Caldeira Cabral. Além da tradição, terá uma componente electrónica e de improvisação.

Poderia destacar um dos seus projectos mais recentes, apresentar o contexto da sua criação e também as particularidades da linguagem e das técnicas usadas?

HVR: Sim, vou falar da peça na qual estou neste momento a trabalhar, que tem como título Quasi Ritorno e será estreada em Zagreb pelo Trio Elogio (Croácia), composto por Petrit Çeku, Pedro Ribeiro Rodrigues e Tomislav Vukšić. Está neste momento em revisão pelos músicos. Após receber as suas opiniões irei trabalhar o que acho pertinente e concluir a peça. Pronta para ser interpretada.

Quasi Ritorno é uma peça para trio de guitarras, onde proponho um discurso entre mistério, claridade e turbulência. Ao longo da obra são criados diferentes tipos de focos, assumindo o timbre, a intuição e a percepção um carácter formal na organização sonora. A sua estrutura apresenta quatro ciclos de repetição não literal, em notação proporcional, onde as figuras são projectadas em diferentes espaços e tempo. Entre cada ciclo são introduzidas roturas, complementares com a ideia de objecto fluido, com gestos mais definidos e diferente controlo de energia. Esta sequência, de secções de repetição não literal e de secções de rotura (lembrando o conceito de Eterno Retorno segundo Nietzsche, em A Gaia Ciência), é interrompida por uma secção final com novos acontecimentos, contexto diferente e uma organização sonora ligada à relação entre tensão e distensão, concluindo o discurso numa cacofonia semelhante ao toque dos sinos a rebate numa catedral.

Hugo Vasco Reis, Outubro de 2019
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