Em foco

José Luís Ferreira (1973-2018)


Em Foco: José Luís Ferreira (1973-2018)

INTRODUÇÃO

"É-me essencial entender como funciona o fenómeno sonoro. É a tal «massa» com que inicialmente pretendemos lidar quando escrevemos «a» primeira nota numa partitura (…)" [1] – disse José Luís Ferreira, compositor, professor e “performador” [2], na entrevista dada ao MIC.PT em Novembro de 2013. O seu desaparecimento precoce em Fevereiro de 2018 situa-o na companhia de muitos outros compositores da história da música, cujo falecimento no pico das suas capacidades criativas deixou lacunas no contínuo histórico levantando perguntas, às quais nunca encontraremos respostas concretas: "como seria a próxima peça de ...? qual a direcção estética que tomaria ...?"

Henry Purcell (desapareceu aos 36 anos), Wolfgang Amadeus Mozart (aos 35 anos), Fryderyk Chopin (aos 39), Franz Schubert (aos 31), Cornelius Cardew (aos 45), Claude Vivier (aos 35), Enrique X. Macías (aos 37), José Luís Ferreira (aos 44 anos), ... – uma parte importante do percurso destes e de vários outros compositores cuja vida foi prematuramente interrompida, permanecerá para sempre uma incógnita ou, no melhor dos casos, uma combinação de especulações. É por isso que se torna tão importante manter vivo o legado que generosamente nos deixaram.

José Luís Ferreira nasceu em Lisboa, tendo crescido com a música de Beethoven e os fados da Amália. "É uma ligação talvez estranha à partida, mas era o que a minha Mãe ouvia. Desde muito novo que decorei e «dirigia» no ar as sinfonias de Beethoven e «aguentava» o fado dos fados da Amália… A minha educação musical começou pelo «ouvir» e isso devo-o à minha Mãe (… e ao Beethoven). Sou músico graças ao que a minha Mãe me proporcionou, pelas portas que me foi abrindo enquanto crescia. A composição veio mais tarde…" [3] – disse José Luís Ferreira em 2013, ano em que celebrou o seu 40.º aniversário.

A este período inicial, com os concertos na Fundação Gulbenkian e as aulas na Academia de Amadores de Música de Lisboa (inclusive de Análise e Técnicas de Composição com Pedro M. Rocha), seguiram-se os estudos na ESML – Escola Superior de Música de Lisboa onde José Luís Ferreira trabalhou com Christopher Bochmann, António de Sousa Dias e António Pinho Vargas. Paralelamente ao Curso de Composição, assistiu a seminários e workshops de diversos compositores, como Emmanuel Nunes, Jean-Claude Risset, John Chowning, Per Anders Nilsson e Trevor Wishart, entre outros. "Pedro M. Rocha abriu-me as portas para a Composição. Na ESML tive contacto privilegiado com professores como Christopher Bochmann que me ensinou os aspectos fundamentais sobre técnicas de composição e plantou as bases para adquirir um «métier», com o António de Sousa Dias veio a electroacústica, e com o António Pinho Vargas vieram os «porquês» e o controle formal." [4]

Na sua prática de composição José Luís Ferreira assumia como referência compositores tão díspares como Gérard Grisey, Salvatore Sciarrino e Helmut Lachenmann, mas cujo trabalho parte sempre do som. "Existe uma obra de Gérard Grisey, a qual não me permito ouvir muito por causa da chamada «angústia da influência» (Harold Bloom), que se chama Vortex Temporum – tem três andamentos – o segundo é dedicado a Salvatore Sciarrino e o terceiro a Helmut Lachenmann. A referência a esta obra é só uma forma de apresentar estes três compositores que têm sido as minhas referências actuais e não poderiam ser mais díspares…" [5]

José Luís Ferreira desenvolveu a essência da sua gramática musical em directa ligação com a tecnologia e informática musical – domínios no âmbito dos quais, de uma forma inquieta e persistente, operou uma pesquisa (também estética), afirmando a sua liberdade criativa e partilhando os resultados das suas procuras no contexto pedagógico, nomeadamente, do Laboratório de Música Mista na ESML. "Sem dúvida, ele contribuiu para fazer avançar o seu tempo" [6] – disse o compositor e poeta Miguel Azguime na Mesa Redonda dedicada a José Luís Ferreira e transmitida no passado mês de Fevereiro, em duas partes, no programa de rádio Música Hoje (RTP – Antena 2). "O Zé passava dias na Escola. O entusiasmo dele era contagiante e o Laboratório tinha uma adesão interessante de alunos" [7] – lembrou nesta mesma emissão do Música Hoje o compositor Carlos Caires. "O desafio do Zé era por nos a vontade com os nossos sons e instrumentos. Os alunos à partida estavam desconfortáveis… Durante estas improvisações ele manipulava e reagia ao som" [8] – contou o saxofonista Philippe Trovão, ex-aluno de José Luís Ferreira. Foi no âmbito do Laboratório de Música Mista (entre vários outros contextos em que José Luís Ferreira trabalhava, nomeadamente com a Miso Music Portugal e o Ensemble MPMP), que o compositor punha em prática as principais premissas da sua Tese de Doutoramento, em que defende a posição do "performador" no campo da música electrónica. Segundo José Luís Ferreira, o "performador" não é apenas um executante, mas sim o “músico cujo objectivo primário é a realização de uma partitura em som" [9]. "O papel do «performador» é jogar com os músicos. E este jogo mágico só acontece quando há outros" [10] – enfatizou Carlos Caires no Música Hoje.

José Luís Ferreira não gostava de falar sobre a sua própria música, o que também afirmou na entrevista do MIC.PT: "Não gosto de escrever notas de programa explicativas porque, para mim, serão sempre um condicionamento à fruição da obra. Não quero nem tenho o direito de aproximar a visão dos outros à minha… Na realidade, «os porquês» não têm que ser partilhados abertamente – só através da obra. São os «eus» que têm que descobrir os seus «porquês»…" [11]

O MIC.PT decidiu lembrar José Luís Ferreira através das palavras de alguns dos seus amigos, colegas, alunos, professores e colaboradores, aos quais foi lançado o desafio de responder a um Questionário sobre o compositor – o que, como testemunharam alguns deles, não foi uma tarefa fácil. "Tudo me parecia muito pouco ou exagerado, e sendo verdade que sempre gostei de provocar o Zé e ele a mim, mas isso era entre os dois, entre dois amigos de longa data" [12] – disse o compositor Bruno Gabirro.

Cada um dos participantes do Questionário tinha uma relação única com José Luís Ferreira... ou talvez seja mais adequado permanecer no presente, dizendo que a "tem", sendo que, por vezes, a ausência física de alguém torna ainda mais forte a sua presença "espiritual" e intelectual. Assim, José Luís Ferreira continua a "viver" com as várias pessoas que tiveram o privilégio de com ele se cruzar.


QUESTIONÁRIO

Os participantes que responderam ao Questionário são: António de Sousa Dias (compositor, artista multimédia e professor), Bruno Gabirro (compositor), Carlos Marecos (compositor e professor), Eduardo Luís Patriarca (compositor), Jan Wierzba (maestro), Miguel Azguime (compositor, “performador” e poeta), Philippe Trovão (saxofonista) e Ricardo Guerreiro (compositor e “performador”).


PASSADO

Como José Luís Ferreira descobriu a música? Quais os caminhos que o levaram à composição? (pode responder de acordo com os factos, ou dar asas à imaginação…)

Carlos Marecos: Não tenho toda a informação, mas penso que terá sido como baixista num contexto diferente, ainda antes de se aproximar à música erudita.

Jan Wierzba: Através da sua Mãe, mulher que sempre quis estudar piano, embora não lhe tenha sido possível. Era absolutamente apaixonada por Beethoven e terá projectado o seu gosto e também algumas ambições no José Luís. Penso que o que o levou à composição, especulando, foram características da sua personalidade: curiosidade insaciável, criatividade e a necessidade de se expressar, para além do gosto na música alternativa que cresceu a ouvir.

Miguel Azguime: O José Luís Ferreira chegou à música porque não o podia evitar! Como todo o criador que o é, fê-lo de maneiras diversas, passando por diferentes linguagens e géneros musicais à procura do seu próprio caminho.

Ricardo Guerreiro: Assim que o Zé começou a estudar Análise e Técnicas de Composição (ATC) na Academia de Amadores de Música, com Pedro M. Rocha, imediatamente os exercícios se tornaram desafios para ele muito cativantes. O tempo era dividido entre o estudo do contrabaixo e o da composição. Com o passar do tempo, o interesse pela composição foi aumentando e ocupando cada vez mais tempo da sua vida. Lembro-me nitidamente que, a partir de certa altura, talvez no início do terceiro e último ano de ATC, era óbvio para qualquer um dos dois, que ambos iríamos tentar ingressar em Composição Musical na ESML, embora fossemos ambos instrumentistas dedicados e elogiados pelos Professores. Mas o que parecia mexer cada vez mais connosco era a lógica da criação musical, para resumir de forma simples.


LINGUAGEM E ESTÉTICA

Descreva a música de José Luís Ferreira usando apenas sete expressões.

António de Sousa Dias: Diria que a música de José Luís Ferreira é actual, fresca, surpreendente, desafiante, provocadora, experimental, motivadora.

Carlos Marecos: Viva, com pulso, teatral, mesclada, actual, irónica por vezes, tecnológica.

Jan Wierzba: Sistema, esquema, improvisação, romântica (não no sentido de música romântica, mas mais num sentido literário), narrativa, aventureira, rock and roll.

Miguel Azguime: Intensa, rigorosa, elaborada, actual, irrequieta, imaginativa, bela.

Philippe Trovão: Bela, desafiante, actual, inspiradora, diferente, inteligente, expressiva.

Ricardo Guerreiro: Orgânica, inspirada, inventiva, ritmada, seccionada, desafiante, variada.


Como pode caracterizar a linguagem musical de José Luís Ferreira (usando mais do que sete expressões)?

Jan Wierzba: Acima de tudo José Luís era uma pessoa que adorava histórias, vivê-las e conhecê-las. A componente aventureira que compõe as histórias, frequentemente, estava muitíssimo presente no output criativo do José, levando-o constantemente a procurar soluções, inovar e quebrar barreiras.

Ricardo Guerreiro: Aberta à novidade, arejada, descomprometida, espirituosa, informada, dialogante com a música de outros compositores, comunicativa, inventiva e expressiva.


Consegue identificar algum aspecto transversal na música de José Luís Ferreira?

António de Sousa Dias: O experimentalismo sistemático. O José Luís Ferreira estava sempre a experimentar.

Carlos Marecos: O uso da electrónica do ponto de vista dos meios, e o uso de pulsação regular do ponto de visto da escrita.

Eduardo Luís Patriarca: Coerência.

Jan Wierzba: A procura de novos mundos sonoros, normalmente através do uso de meios electrónicos.

Miguel Azguime: O trabalho sobre a própria linguagem musical, sem preconceitos, e de forma aprofundada.

Ricardo Guerreiro: Dá-me ideia de que toda a música do Zé é muito bem aceite pelos músicos que a interpretam. Está escrita de forma inteligente. Os músicos têm prazer em trabalhá-la.


Que referências do passado e do presente musical, José Luís Ferreira assumia enquanto compositor?

Carlos Marecos: Helmut Lachenmann, entre muitos outros…

Eduardo Luís Patriarca: Assumia toda a música, não me parece que sentisse passado e presente mas sim um contínuo de informação.

Jan Wierzba: Na verdade, tantas conversas tivemos sobre compositores que não me recordo de referências claras. Amante de Bach, Gustav Mahler, Claude Vivier, György Ligeti, Luigi Nono… e numa nota um pouco mais surpreendente, fã de bandas sonoras e compositores como John Williams e Hans Zimmer, por exemplo, seus companheiros de viagens de carro, frequentemente.

Ricardo Guerreiro: Beethoven e Stravinsky. Música enérgica e ritmada. A Sagração da Primavera era muito especial para ambos. Assistimos lado a lado a Boulez a dirigir esta obra no Coliseu, como se fosse um concerto de rock. Seguimos cada segundo intensamente. De Natura Sonorum de Bernard Parmegiani também o entusiasmou muito. Também fomos juntos e entusiasmados a alguns concertos de jazz menos standard, mais de "fusão". Isto nos anos ‘90. No presente o Zé parecia estar sobretudo entusiasmado com o aprofundamento do estudo dos grandes clássicos, talvez pelo que tinha de preparar para as suas aulas. Isto era algo que fazia com muito empenho e feliz dedicação.


Sistemático ou impulsivo? Como descreveria o método de trabalho de José Luís Ferreira?

António de Sousa Dias: Um equilíbrio entre os dois. Diria que o José Luís Ferreira tinha sistematicamente impulsos, mas os seus impulsos por seu turno encerravam aspectos sistemáticos.

Carlos Marecos: Mais impulsivo do que sistemático.

Eduardo Luís Patriarca: Segredo. Não conhecia o seu método para o descrever, nem penso que me interesse muito saber, porque o resultado superava qualquer método. E nesse resultado encontrava as duas situações, sistema e impulso. Não é sempre assim a música dos grandes?

Jan Wierzba: Decididamente os dois. Na larga maioria sistemático e impulsivo em momentos chave. Ou então impulsivo no primeiro momento de criação e depois sistemático até ao fim.

Miguel Azguime: As duas coisas: a música do José Luís Ferreira é justamente uma dialéctica entre estes dois processos.

Philippe Trovão: Ambos. Quando fui aluno do José Luís tivemos muitas aulas de Csound em que o seu entusiasmo tomava controlo e começava a escrever linhas de código, porque estava a descobrir algo que até então ainda não tinha pensado. Chegava ao ponto de ninguém compreender mais o que estava a fazer e ele estava a divertir-se. Nesse sentido, o seu entusiasmo tornava-o impulsivo, sempre no bom sentido. Por outro lado, e visto que tive a possibilidade de compor e trabalhar com Max / MSP perto dele, percebi que ele era extremamente organizado e sistemático. Todos os patches dele estavam arrumadíssimos e toda a informação que nos passava em aula ou na internet estava organizada. Durante as aulas de Análise Musical também se destacava por ser muito sistemático na forma como passava a matéria.

Ricardo Guerreiro: Sistematicamente impulsivo. Eu preferiria dizer intuitivo, por exemplo. O Zé começava a trabalhar e as ideias iam surgindo e conduzindo o processo. Ele divertia-se com as ideias que ia tendo enquanto escrevia música. Eu assisti a isso várias vezes. Tive oportunidade de estar ao seu lado enquanto escrevia / inventava música sua. E à medida que se surpreendia com as suas ideias partilhava sem reservas a sua emoção e o seu interesse.


Porquê, na sua opinião, José Luís Ferreira escrevia música?

António de Sousa Dias: Por natureza. O José Luís Ferreira era completamente músico e criador, por isso, escrever música era algo de natural.

Carlos Marecos: Por necessidade artística natural.

Eduardo Luís Patriarca: Era o seu discurso, a sua forma de estar. Em essência escrevia porque era músico, era criador.

Miguel Azguime: Porque era a sua forma de estar vivo.

Ricardo Guerreiro: Muitas vezes me parecia um gesto próximo do improvisar com um instrumento. Quando se punha a escrever música estava realmente já a fazer música.


Escolha uma obra de José Luís Ferreira – porquê esta peça é para si importante e, na sua opinião, qual é a importância da mesma no percurso do autor?

António de Sousa Dias: Entre outras, refiro Le bruit d’une tête qui frappe contre les murs d’une très petite celulle. Trata-se de uma peça curta, datada de 2000, e inteiramente sintetizada em Csound. Um dos aspectos relevantes desta obra reside na articulação que José Luís Ferreira faz entre técnicas de produção e estratégias de percepção, colocando em jogo métodos de síntese em confronto com aspectos tipo-morfológicos do som.

Bruno Gabirro: Le bruit d’une tête qui frappe contre les murs d’une très petite celulle. Estava em Vila do Conde a frequentar uma Master Class de violino e o José Luís Ferreira convidou-me a ir ao Porto que ia aí ter uma estreia de uma peça para a Orquestra de Altifalantes do Festival Música Viva. Eu fui. No ano seguinte concorri ao Curso de Composição na Escola Superior de Música de Lisboa. O que aí vi, ouvi e vivi, na companhia do Zé Luís foi determinante para a minha decisão. E é uma belíssima peça, vencedora do Concurso de Composição Música Viva 2001, que teve como elemento do júri Jean-Claude Risset – que ele destacava com o orgulho próprio de quem sentia que tinha realizado algo importante, que tinha iniciado o seu caminho.

Carlos Marecos: S(w)ynthesis (2004-07) para quarteto de saxofones e electrónica em tempo real, porque a obra (não sei se a escolha do título também aponta para isso) faz realmente a síntese entre uma linguagem instrumental rica e a linguagem da electrónica.

Eduardo Luís Patriarca: Escolho duas, porque só assim me faz sentido, sem saber qual a importância no seu percurso: (un)Broken (2001) foi para mim a tábua que encontrei imediata, na sua morte, porque quebrou sem nunca quebrar, porque não está sem deixar de estar. Não sei justificar. Le bruit d’une tête qui frappe contre les murs d’une très petite cellule, pelo humor, por ter sido provavelmente o meu primeiro contacto com a música dele.

Jan Wierzba: Avant (2010-11). Porque a gravamos com o Ensemble MPMP, num CD por editar ainda, com o José a tocar connosco, tendo feito dois concertos. Era uma terceira versão da peça, feita especificamente para estes concertos e gravação. É-me especial porque participei, e para o José porque foi um processo de trabalho em que teve amigos muito próximos envolvidos na construção da peça e a sua gravação: Tatiana Rosa, Daniel Bolito, Miguel Costa, Isa Antunes, Catarina Távora, Philippe Marques, Duarte Martins e Luís Delgado.

Miguel Azguime: Avant (2010-11) – por um lado tenho com esta peça uma ligação pessoal porque estive implicado na sua própria origem mas sobretudo considero-a uma peça fundamental na sua produção, porque nela o José Luís Ferreira procurou levar até ao fim a sua indagação acerca das relações entre o “instrumental acústico” e o “instrumental electrónico”, numa tentativa de integração plena entre os dois meios.

Ricardo Guerreiro: Ainda enquanto aluno de composição o Zé escreveu uma peça para vozes (fala e ruídos) baseada em excertos da Metamorfose de Kafka. A peça foi executada na ESML por colegas seus, entre os quais eu me incluía. Foi uma peça que partiu de um desafio do prof. Christopher Bochmann no sentido de o Zé criar algo "arejado", mais livre e diferente de tudo o que tinha feito até então. Para mim esta peça é importante no seu percurso porque foi a primeira vez que vi nele algo que viria a permanecer como característica. Eu sempre achei que esta proposta do prof. Bochmann passou desde aí a ser naturalmente aplicada pelo Zé a toda a música que escrevia. Descobriu a sua "liberdade livre".


ESPECULAÇÃO

Quem seria José Luís Ferreira se não tivesse sido compositor / músico?

António de Sousa Dias: Um artista certamente. Era inevitável.

Carlos Marecos: Técnico de som, ou piloto de aviões.

Eduardo Luís Patriarca: Aquilo que já era, Ser Humano. Onde sempre esteve o melhor dele.

Philippe Trovão: O José Luís era extremamente inteligente e chegou a passar por um curso de engenharia numa universidade em Lisboa, portanto acho que muito provavelmente seria engenheiro. Sabendo que também tinha muitas preocupações ambientais também poderia ter seguido por uma área relacionada com isto.

Jan Wierzba: Ilustrador / escritor de banda desenhada e cientista.


Como seria a música de José Luís Ferreira sem a existência de meios electrónicos e novas tecnologias?

António de Sousa Dias: A sua música seria sempre fresca e surpreendente. José Luís Ferreira era um experimentador nato, com um grande entusiasmo pela vida e de enorme curiosidade e capacidade de risco.

Carlos Marecos: Seria parecida, mas sem meios electrónicos.

Eduardo Luís Patriarca: Seria a mesma. A capacidade de criar do José Luís Ferreira ultrapassava a tecnologia, esta era mais um recurso, mais um elemento. Se não existisse, não existia, assim mesmo. Deixava somente de ser um dos recursos.

Miguel Azguime: Acho que seria a mesma música, com o mesmo tipo de escrita, mas na qual ficariam a faltar instrumentos para a concretização do seu sonho musical.


Qual seria a próxima peça de José Luís Ferreira? Qual direcção estética que tomaria enquanto compositor?

Carlos Marecos: Aprofundar a música mista e a relação dos instrumentistas com a electrónica.

Miguel Azguime: A próxima peça julgo que teria nascido das circunstâncias como aliás a maior parte da música que escreveu. A meu ver o José Luís Ferreira estava em plena fase de afirmação das suas pesquisas de longos anos e como tal não estaria numa fase de re-questionar a sua estética, mas sim de a afirmar.

Philippe Trovão: Gostava que a próxima peça dele fosse para saxofone e electrónica em tempo real. E gostava de a ter interpretado. Esteticamente não tenho a certeza, mas acho que o José iria continuar o trabalho do seu doutoramento e que consistia em trabalhar em formas de interacção entre um intérprete e a electrónica numa obra. No trabalho o José explica que existem basicamente dois tipos de electrónica: a electrónica em tempo diferido (por exemplo tape) e electrónica em tempo real. Ambas, numa peça podem trazer constrangimentos. A primeira porque se o instrumentista está a tocar com uma gravação fica inevitavelmente preso à mesma dando pouca possibilidade a diferentes interpretações da obra. Na segunda o problema é o facto de tecnologia avançar a uma velocidade demasiado grande, pondo em risco a sustentabilidade das tecnologias. É extremamente cansativo estar a rever programas e a arranjar soluções informáticas para hardware ou software que caíram em desuso ou já não têm suporte. O José percebeu desde cedo este problema e dedicava-se muito a isto, não fosse ele também um intérprete de computador. Assim, acredito que ele iria dar continuidade ao trabalho que estava em curso e arranjar uma forma de eliminar estes constrangimentos para permitir uma união grande entre o intérprete de carne e osso, e a máquina. Estou a referir-me por exemplo ao Sistema Ohn, que estava a ser desenvolvido por ele e que permitia que uma gravação fosse atrás do intérprete ao invés do intérprete ir atrás dela. Isto iria mudar muito a forma de como se compõe e executa obras de música electroacústica, permitindo aos intérpretes tocarem com o seu máximo potencial.


MÚSICA PORTUGUESA

Como seria a música portuguesa se José Luís Ferreira nunca tivesse aparecido?

António de Sousa Dias: Mais pobre certamente. José Luís Ferreira é um dos compositores que pela sua postura e trabalho contribuiu para colocar a música portuguesa no século XXI em termos de pensamento, atitude e meios utilizados.

Carlos Marecos: Seria menos rica e menos diversa.

Eduardo Luís Patriarca: Obrigatoriamente mais pobre...

Jan Wierzba: Mais pobre. A música em geral. Uma pessoa tão confiante na sua razão que o caminho que percorria tinha futuro a nível de output, bem como os meios que procurava usar e desenvolver (ou seja ligados à música electrónica), que abriu caminhos a outros interessados, através da sua perseverança.

Philippe Trovão: O José Luís deixou um legado muito bonito. Influenciou pessoas a dedicarem-se à música electroacústica. Pessoas essas que agora estão pelo país a fazer concertos e a levar uma corrente musical por vezes difícil de ouvir a mais pessoas. Sem a acção dele a corrente electroacústica não teria avançado nos últimos anos como avançou e hoje não haveria tanta desta música programada em auditórios e salas de concertos, nem tanta gente a querer interpretar este género de obras. A música portuguesa seria muito daquilo que já é, no entanto a música electroacústica portuguesa seria definitivamente mais pobre.


PEDAGOGIA

Qual foi a abordagem de José Luís Ferreira enquanto pedagogo / professor?

António de Sousa Dias: A sua abordagem foi um estar sempre à escuta, sempre inquieto, aberto a experiências, sempre virado para o futuro neste presente, sempre incentivando, motivando e participando com as novas (e menos novas) gerações para se ir mais longe.

Carlos Marecos: Foi a de um professor que abordava uma metodologia de pesquisa baseada na prática e no contacto da música com o público.

Philippe Trovão: Eu acredito que o José Luís queria mudar mentes. Tanto com o Laboratório de Música Mista, como com os seu alunos de composição ou síntese, ele queria levar a música electroacústica mais longe e a mais pessoas. Nas aulas ele partilhava constantemente esse entusiasmo e isso criava uma atracção ao que ele dizia. Era um professor que desafiava os alunos a ir mais longe e a superarem-se ao metê-los em situações desconfortáveis ou a confrontá-los. Estava sempre disponível para os alunos e ajudava em tudo o que era necessário. Durante as aulas de composição fazia questão de ir ao encontro do aluno e das suas ideias e completava-as com mais informação ou oferecia um caminho que ainda não se tinha pensado anteriormente. Foi um professor disponível, desafiante, que queria quebrar barreiras e que se adaptava a qualquer situação.


Qual foi a abordagem de José Luís Ferreira enquanto pedagogo / professor?

António de Sousa Dias: O José Luís Ferreira tem vários domínios em que a sua contribuição é efectiva e comprovável. Para além do trabalho no âmbito da Música Electroacústica, na ESML, deve-se salientar a motivação que transmitiu a jovens compositores e músicos no âmbito de uma abordagem musical actual, e.g. Laboratório de Música Mista da ESML, o José Luís Ferreira também esteve na origem do programa de Música e Novas Tecnologias em vigor para as escolas profissionais. A sua passagem pela licenciatura em Arte Multimédia (Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas-Artes) também representou um contributo relevante para a disciplina de Práticas do Som.

Carlos Marecos: Sobretudo na divulgação e do ensino da música electrónica e mista, na improvisação com esses meios e ainda na composição em geral e na análise.

Jan Wierzba: Foi importantíssimo na abertura de algumas mentes e de traçar alguns caminhos, tanto de compositores como de jovens instrumentistas, que cada vez mais o procuravam enquanto mentor, dados os seus interesses principais.

Miguel Azguime: O que conheço do José Luís Ferreira enquanto pedagogo é o resultado musical, que pude ver e ouvir, dos seus alunos. Aí reconheço a sua visão alargada para um entendimento do que seja música hoje e uma perspectiva histórica e de vanguarda que soube transmitir, incentivando a pesquisa e a inovação.

Philippe Trovão: Penso que uma das maiores marcas do José Luís como pedagogo foi a influência que teve em muitas pessoas que, depois do contacto com ele, começaram a ouvir e a tocar música electroacústica. A acção dele no Laboratório de Música Mista da Escola Superior de Música de Lisboa foi de fazer chegar diferentes abordagens à música a intérpretes que até então não tinham pensado nisso. Ele acabou por criar em Lisboa um grupo de pessoas que hoje se dedica quase a tempo inteiro a música electroacústica e que por sua vez irá espalhar pelo mundo. É como se tivesse criado um movimento em prol desta corrente musical. E o alcance da influência dele vai ainda mais longe. Posso dizer com toda a certeza que mudou o percurso de muitas pessoas com quem teve contacto. Acredito que a maior contribuição para o ensino que ele fez foi a influência que ele teve em outras pessoas e o facto de ter aberto portas para que a música à qual se dedicava com tanta paixão, pudesse ir mais longe e chegar a mais sítios.

Março de 2019
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1 Entrevista do MIC.PT a José Luís Ferreira, publicada na secção Em Foco do MIC.PT em Novembro de 2013.
2 Termo usado por José Luís Ferreira na sua Tese de Doutoramento: Música Mista e sistemas de relações dinâmicas; orientador: António de Sousa Dias; Março de 2014, Universidade Católica Portuguesa.
3 Entrevista do MIC.PT a José Luís Ferreira, publicada na secção Em Foco do MIC.PT em Novembro de 2013.
4 ibidem
5 ibidem
6 Estes dois programas Música Hoje em que participaram amigos, alunos, professores e colaboradores de José Luís FerreiraAntónio de Sousa Dias, Carlos Caires, Miguel Azguime, Philippe Trovão e Pedro Boléo (moderador da Mesa Redonda) – foram transmitidos a 8 e 22 de Fevereiro na Antena 2 e estão disponíveis para ouvir através do RTP – Play.
7 Música Hoje de 8 e 22 de Fevereiro; programa de rádio produzido para Antena 2 pelo MIC.PT / Miso Music Portugal; disponível para ouvir através do RTP – Play.
8 ibidem
9 Tese de Doutoramento de José Luís Ferreira: Música Mista e sistemas de relações dinâmicas; orientador: António de Sousa Dias; Março de 2014, Universidade Católica Portuguesa; p. 49.
10 Música Hoje de 8 e 22 de Fevereiro; programa de rádio produzido para Antena 2 pelo MIC.PT / Miso Music Portugal; disponível para ouvir através do RTP – Play.
11 Entrevista do MIC.PT a José Luís Ferreira, publicada na secção Em Foco do MIC.PT em Novembro de 2013.
12 E-mail de Bruno Gabirro para o MIC.PT; 1 de Fevereiro de 2019, Lisboa.