Em foco

Christopher Bochmann


“Sou músico, que não tem vergonha de sentir lágrimas nos olhos.
A flexibilidade emotiva na música deve-se à coexistência da intuição com o rigor.
É o rigor que nos permite a melhor expressão intuitiva.”

O anglo-português ou luso-britânico está presente na vida musical portuguesa há mais de trinta anos. Em Novembro do ano passado, festejámos os seus sessenta anos e trinta de permanência em Portugal, repartidos por uma intensa actividade enquanto compositor, professor e maestro. Sejam convidados a conhecer melhor a criação e o trabalho vasto de Christopher Bochmann. Christopher Bochmann começou a compor com 14 anos de idade. Formou-se em composição pela Universidade de Oxford, mas estudou também com a famosa Nadia Boulanger em Paris e com Richard Rodney Bennett em Londres. O compositor trabalha em Portugal desde 1980. Leccionou em várias escolas na área de Lisboa nomeadamente no Instituto Gregoriano de Lisboa e no Conservatório Nacional. Durante seis anos, foi Director da Escola Superior de Música de Lisboa, onde também coordenou o curso de Composição de 1990 a 2006. Desde 2006 é Professor Catedrático Convidado da Universidade de Évora, onde desde 2009 também é Director da Escola de Artes. É maestro titular da Orquestra Sinfónica Juvenil desde 1984 com a qual gravou três CD’s da sua própria música. Em 2004 foi-lhe atribuído uma Medalha de Mérito Cultural do Ministério da Cultura. E em 2005 foi agraciado pela rainha Isabel II com a condecoração O.B.E. (Officer of the Order of the British Empire). A música isobemática As composições de Christopher Bochmann abrangem quase todos os géneros musicais, da música para solistas à música orquestral, da música de câmara à ópera, para além de inúmeras orquestrações e arranjos. O seu estilo musical passou por uma fase de considerável complexidade de modernismo pós-serial, quando trabalhou intensamente com formas aleatórias e abertas, e ainda com improvisações controladas. Todavia, mais recentemente, a sua música tem incorporado alguma simplicidade, seguindo assim certas tendências do pós-modernismo sem contudo recorrer ao neo-tonalismo. “Cheguei a inventar um termo que tem uma etimologia grega: é a palavra «isobemática». Vem do isos (que é igual), e de bema (que é o passo). Refere-se, portanto, a uma música baseada sobre passos iguais. Já não estamos a falar numa escala de tom maior que tem o esquema de tom, tom, meio tom, tom, tom, tom, meio-tom, ou da combinação de diferentes tipos de passo, mas estamos a falar de uma música baseada sobre uma escala toda de meios tons (ou uma escala toda de quartos de tom, ou seja o que for, toda de sextos de tom) – uma escala em que todos os passos são iguais”, explica o compositor numa entrevista feita pelo Centro de Investigação e Informação da Música Portuguesa em 2003. E ainda sublinha: “A meu ver, tudo na música é relativo. Numa música que não tem tonalidade e que não tem compasso, e não tem estas hierarquias, tudo é igual, tudo é «isobemático» (os meios tons, as colcheias, as semicolcheias, as tercinas, etc). É uma questão de relacionar uma coisa com a outra.” Na sua música vocal, Christopher Bochmann interessa-se especialmente na exploração de aspectos tanto fonéticos como semânticos do texto, não recorrendo, contudo, à ligação artificial entre a palavra e a música. Toda a sua criação revela uma preocupação com a relatividade com que ouvimos e apreciamos o som, numa tentativa de fazer corresponder os processos e as técnicas estruturantes da música cada vez mais próximas de critérios intrinsecamente musicais. “Eu acho que «ouvir» talvez seja uma palavra importante, mas é preciso entender a palavra «ouvir» e distingui-la da palavra «escutar». Há muitas pessoas que «ouvem», mas não prestam atenção nenhuma, deixam pura e simplesmente a música passar. Portanto, temos que tentar fazer com que as pessoas realmente apreciem as coisas, não pela linguagem que têm, mas pelo conteúdo que têm – isso é que é o fundamental.” Professor da “Segunda Escola de Évora” Christopher Bochmann tem desenvolvido uma actividade didáctica quase sem interrupção desde 1973. Em Portugal criou uma geração de jovens compositores, que hoje em dia seguem as suas carreiras individuais, algumas delas com projecção internacional. O próprio compositor sempre menciona a importância do seu trabalho enquanto professor enfatizando a influência entre os vários papeis que desempenha nas suas actividades: “[Com frequência] o que me passa pela cabeça são pensamentos, são imaginações com base naquilo que um aluno ou outro me disse ou com base numa conversa que eu tive com um instrumentista. Isto faz-me constantemente reavaliar a minha atitude perante à música, a minha postura estética perante à composição...” Na sua actividade teórica, o compositor tem produzido vários artigos sobre aspectos da teoria musical. Escreveu o livro “A Linguagem Harmónica do Tonalismo”, que se tornou um texto de referência no ensino da Harmonia em Portugal. Em 2006 a edição foi suplementada com um livro de análises harmónicas intitulado “A Linguagem Harmónica do Tonalismo – Análises e Exercícios”. Desde 2006 as actividades didácticas de Christopher Bochmann concentram-se em Évora onde conseguiu reanimar a vida musical, tanto ao nível prático como teórico, recolocando este centro no mapa da história da música portuguesa. Segundo o próprio compositor o Curso de Composição da Universidade de Évora tem um elemento unificador: “Não é uma questão de estilo e dizer que é uma questão de seriedade seria um pouco exagerado. Todavia há qualquer coisa numa atitude, que estas pessoas, de modo geral, têm em comum e aí, talvez, se possa falar duma escola. Aliás, na brincadeira, digo várias vezes que de certa forma uma das minhas ideias é de fazer com que os musicólogos tenham que falar da «primeira» escola de Évora – porque entretanto passou a existir uma segunda”. As citações de Christopher Bochmann provêm de uma entrevista feita por Manuela Paraíso para o programa “Na Outra Margem” em Novembro de 2010 (Na Outra Margem Podmatic) e de uma entrevista feita pelo Centro de Investigação & Informação da Música Portuguesa em 2003. Lista de Obras Discografia Entrevista Videos da Homenagem