Completados vinte e três anos de atividade em 2024, o Quarteto Vintage (QV) apresenta o seu terceiro registo fonográfico, intitulado New Vintage. O grupo descreve-o como uma “celebração da música e dos músicos portugueses” e, simultaneamente, como o reflexo de um já longo trajeto de “experimentação sonora e criação artística” marcado pela exploração das potencialidades da música de câmara para clarinete. O disco New Vintage é um contributo muito relevante para o repertório originalmente composto para quarteto de clarinetes, merecendo igualmente destaque o facto de todas as obras serem dedicadas ao QV por compositores portugueses contemporâneos. As sete obras reunidas no disco (todas em primeira gravação) revelam a diversidade sonora e estética da criação musical portuguesa mais recente.

O disco abre com a obra Re_invenções de Nuno Peixoto de Pinho, um conjunto de sete peças que parodiam as Invenções a duas vozes de Johann Sebastian Bach. O compositor parte da citação de temas e gestos contrapontísticos das peças do compositor barroco, transformando-os e propondo novas ideias musicais. A obra apresenta assim realidades musicais distintas, porém intimamente relacionadas, que são engenhosamente articuladas e ampliadas para um dispositivo a quatro partes.
C_gull, de Carlos Lopes, inspira-se na paisagem sonora urbana da cidade do Porto. De acordo com o compositor todas as ideias musicais reportam sonoridades como o trânsito da cidade, o mar e os navios da Foz do Douro e do Porto de Leixões, reinterpretadas pelo quarteto de clarinetes. O discurso musical evolui desde o solo inicial do clarinete baixo (onde predominam sonoridades como o slaptongue e multifónicos) até à longa e intensa secção climática, no registo agudo do quarteto, cujo ponto culminante remete para o som de gaivotas – uma presença constante em geografias marítimas – que é destacado pelo título da peça (foneticamente C_gull soa como Seagull). Trata-se de uma obra intensa e envolvente, marcada pela solidez técnica, pelo rigor formal e pela expressividade, que refletem a maturidade artística deste jovem e versátil compositor.
 Rodrigo Cardoso
Ainda mais jovem é o compositor Rodrigo Cardoso, autor da obra Nuvem. Cardoso esclarece que a obra representa musicalmente “o contorno, o volume e a luminosidade de uma nuvem em metamorfose”. O compositor tira partido da homogeneidade tímbrica do quarteto de clarinetes para criar uma textura sonora aparentemente estática, mas que se transforma gradualmente ao longo do discurso musical, passando por diferentes densidades, velocidades e paletas sonoras. Esta dialética entre a permanência e a transformação apela a uma escuta musical contemplativa, análoga à observação visual do fenómeno atmosférico, quase atingindo o “transe”, como é sugerido pelo compositor.

A compositora Ana Seara contribuiu com duas obras de formação instrumental distinta, mas intimamente ligadas pelo seu conteúdo musical e extramusical. Ambas se inspiram na obra poética Mensagem de Fernando Pessoa, nomeadamente nos seus quinto e sexto poemas (D. Afonso Henriques e D. Dinis) que a compositora relaciona com aspetos da sua vida pessoal. A obra A bênção como espada, a espada como bênção, para quarteto de clarinetes e orquestra, destaca-se pela raridade da sua formação instrumental. Foi encomendada pela Orquestra Clássica do Centro, tendo sido estreada em 2022 por esta e pelo QV, sob a direção do maestro Sergio Alapont (intérpretes desta obra no registo fonográfico). A segunda peça, Som presente desse mar futuro, voz da terra ansiando pelo mar, embora decorrente da primeira, é uma interessante proposta de expansão dos materiais da peça orquestral, mas aqui apenas para o quarteto, explorando não só as potencialidades dos instrumentos, mas também ampliando a função dos intérpretes, nomeadamente recorrendo à palavra. A recitação de fragmentos do poema D. Dinis de Pessoa confere ao discurso sonoro uma dupla dimensão (musical e poética) e ao mesmo tempo contribui para a coesão formal da obra.
 Vítor Faria
A suite (Con)tradições de Vítor Faria é formada por três peças evocativas da música popular e do universo filarmónico, onde o clarinete se assume como “o violino das bandas filarmónicas” como refere o compositor. Ao longo da suite Faria cruza elementos musicais populares com eruditos, ora contrapondo-os, ora sintetizando-os, tirando partido das suas idiossincrasias. O resultado é uma obra rica em referências, que homenageia o diálogo entre realidades culturais distintas, mas tantas vezes complementares ao longo da História.
A última obra do disco, Drone Variations de Carlos Azevedo, é uma encomenda da Banda Sinfónica Portuguesa, que a estreou em 2016 na Sala Suggia da Casa da Música, em colaboração com o QV, sob a direção do maestro Francisco Ferreira. Também neste caso os intérpretes originais são os do registo. Esta que é a primeira composição portuguesa para quarteto de clarinetes e banda sinfónica, descreve o voo de um drone ao longo de vários quadros sonoros que se sucedem sem interrupção. Destaca-se a excelente orquestração e a criativa exploração de diferentes formas de interação do quarteto com a banda sinfónica, fazendo jus ao espírito concertante.
A qualidade composicional destas sete obras garante desde logo o interesse artístico e o espírito inovador do disco New Vintage. Igualmente digna de nota é a qualidade da produção musical, da responsabilidade do QV e do engenheiro de som Rodolfo Cardoso. Mas no centro deste projeto estão os quatro notáveis músicos deste excelente grupo de câmara que, com a sua vasta experiência e sensibilidade artística fazem deste disco um objeto digno de referência no repertório para esta formação. Habituando-nos a um nível performativo de excelência (nomeadamente nos discos Art Vintage de 2008 e Clair de lune de 2012), em New Vintage o QV atinge um inegável amadurecimento interpretativo de novo repertório, pleno de desafios técnicos e expressivos, que confirma uma nova fase artística que anuncia com certeza novos projetos e sucessos. É caso para afirmar que o nome Vintage, mais do que nunca, assenta que nem uma luva a este quarteto, pela maturação artística e capacidade constante de reinvenção e renovação em cada projeto!
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